Amorim faz Lula travar compra de blindados de Israel e irrita Exército

Obuseiro da empresa israelense Elbit Systems foi o vencedor de licitação do Exército Brasileiro - Divulgação/Elbit Systems

A proposta isralense é considerada muito melhor, diz Defesa

Felipe Pereira e Lucas Borges Teixeira
Do UOL, em Brasília
Um impasse entre Celso Amorim, assessor especial da Presidência, e o Ministério da Defesa travou a compra de 36 blindados fabricados por Israel.

O que aconteceu
O Exército investe em um programa de modernização de sua infantaria mecanizada desde 2017. A licitação internacional foi vencida pela empresa Elbit Systems, de Israel, mas o ex-chanceler convenceu o presidente Lula (PT) a segurar o negócio.

Amorim usou as críticas que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, fez ao presidente brasileiro. Lula foi declarado “persona non grata” pelo governo de Israel depois que igualou a situação dos palestinos durante a guerra contra o Hamas ao Holocausto.

A interrupção do negócio deixou o Exército descontente. O equipamento israelense foi muito superior aos concorrentes nas avaliações técnicas. A compra das armas de guerra, chamadas de viaturas blindadas de combate obuseiro, está avaliada em R$ 1 bilhão.

A aquisição é essencial para o Programa Forças Blindadas. O projeto deixaria o Brasil na liderança da infantaria nas Américas, atrás apenas dos Estados Unidos. Também atrapalha planos a longo prazo.

A implementação do Forças Blindadas necessita de uma série de mudanças nos processos do Exército. Estão incluídos treinamentos da tropa e nova doutrina de operação de uma série de blindados. A interrupção da compra atrasa o cronograma e deixa o processo de modernização capenga.

A queda de braço se arrasta desde abril e fez o ministro da Defesa entrar em cena. José Múcio colocou um plano em andamento para convencer Lula a mudar de ideia e retomar a aquisição dos veículos.

Impasse com Israel
Insatisfeito com a atitude de Israel contra o Brasil, Amorim interferiu para que a compra não acontecesse. Na visão do ex-chanceler, principal conselheiro de Lula para assuntos internacionais, não faz sentido seguir com negociações com um país que destrata seu principal líder.

A Defesa e o Exército dizem que é assunto de Estado. Tanto o ministério quanto a corporação argumentam que, embora Netanyahu tenha destratado Lula, o Brasil mantém as relações diplomáticas com Israel. Defendem que esta seria uma controvérsia entre os governantes, enquanto os blindados em questão duram mais do que os mandatos do petista e do premiê.

Amorim questionou se o contrato não poderia ser repassado ao segundo colocado da licitação, uma empresa tcheca. O pedido foi rechaçado pela Defesa, sob a explicação de que não haveria argumentos técnicos para fazer a mudança e isso poderia abrir um precedente “perigoso”.

Múcio acena ao PT
O ministro da Defesa vai apostar na produção nacional para a compra dos 36 obuseiros sair do papel. Segundo fontes ligadas ao Planalto, Múcio procurou diretamente representantes da Elbit Systems no Brasil e ouviu que, caso o negócio seja fechado, há a intenção de construir uma nova fábrica para fazer os blindados aqui. A empresa já tem duas plantas no país: no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

Haveria uma espécie de teste. As duas primeiras unidades seriam feitas com 60% de peças de Israel e 40% daqui, para que os equipamentos sejam testados e possam comprovar que atendem as especificações do Exército.

As demais 34 viaturas obuseiras seriam de fabricação nacional. Todos os equipamentos seriam feitos numa nova planta da Elbit Systems no país, a ser finalizada até 2027.

Esta foi a proposta levada por Múcio a Lula na última semana. De acordo com apuração do UOL, Lula disse ao ministro que vai “resolver a questão”. Não foi estipulado um prazo para uma decisão final.

Criar empregos que envolvem alta tecnologia é considerado um argumento para obter apoio do PT. O partido de Lula é defensor de abertura de vagas de mão de obra qualificada e da reindustrialização.

Outra frente seria confrontar o argumento de Celso Amorim. Na semana passada, o ministro da Defesa enviou um ofício ao TCU (Tribunal de Contas da União) ressaltando a impossibilidade de escolher o segundo colocado na licitação internacional. É esperado que o órgão dê uma resposta ainda nesta semana.

A Defesa espera que a proposta de usar o equipamento tcheco seja negada. O Exército lamenta que isso atrase um processo que já se arrasta desde 2017.

Importância estratégica dos obuseiros
O obuseiro é uma arma capaz de atirar um projétil a longas distâncias. O equipamento selecionado pelo Exército tem canhão de 155 milímetros montado sobre um carro blindado. O disparo descreve uma trajetória em parábola que passa por cima das tropas aliadas e atinge os adversários que estão a quilômetros de distância.

Os obuseiros selecionados pelo Exército complementam outros blindados: Guarani, Centauro e Guaicuru. O trio é armado com metralhadoras de grosso calibre, mísseis e canhões. Um oficial do Exército explicou ao UOL as razões que fizeram o modelo israelense ser selecionado para operar com estes blindados.

O primeiro diferencial é a velocidade. As viaturas obuseiras chegam a 120km/h quando trafegam sobre estradas. Em modo off-road, são capazes de atingir 80 km/h. Desta forma, estão aptos a seguir os demais blindados.

Um obuseiro que fica para trás no campo de batalha pode ficar inoperante. Ele fica tão distante das tropas aliadas que seu projétil pode se transformar em fogo amigo.

Ter rodas é outro fator positivo. Veículos com lagartas, aquela esteira que aparece abaixo da imagem tradicional do tanque de guerra, desenvolvem menor velocidade. Outra desvantagem deste sistema de locomoção é que o atrito com o asfalto estraga as estradas e a própria lagarta.

A rapidez para deixar o obuseiro israelense pronto para disparo é o último diferencial mencionado. Sistemas computadorizados fazem os ajustes nas peças para o equipamento ficar pronto para atirar. Por estar sobre um veículo, não é preciso fazer ações de estabilização antes do tiro.

Para comparação, há obuseiros puxados por caminhões. Eles precisam ser desacoplados, fixados no chão em buracos a serem cavados por soldados e ter as peças alinhadas. O processo pode demorar até meia hora, quando o alvo já pode ter saído do raio de ação.

Como foi a licitação
O Exército terminou o processo em abril. A escolha é feita por meio de um processo chamado de compra internacional. O UOL apurou que o equipamento israelense foi considerado o melhor por “margens bastante amplas”.

O passo seguinte foi o Estado-Maior do Exército dar andamento à aquisição. Esta foi a fase da interrupção do negócio. Nas palavras de um oficial, “houve influência da parte política e o processo saiu do controle dos militares”.

A proposta isralense é considerada muito melhor. As outras opções de viaturas obuseiras que foram classificadas para participar da compra internacional são de empresas da República Tcheca, da França e da China.

Respostas de 22

    1. Xavier, Correto! E as restrições nacionais? Porquê a Taurus resolveu montar fábrica nos EUA, por exemplo? Porquê a VALE continua a fazer barragens quando poderia terceirizar a exploração de minérios raros desses depósitos e, as sobras, fabricar tijolos de alto desempenho? Aproveite e dê uma pesquisada na história sobre estaleiro EMAQ, na Ilha do Governador/RJ.

  1. O governo brasileiro está corretíssimo. Cancela essa “compra” e desenvolve um obuseiro nacional…..qual a dificuldade? Ah sei! A gente sabe que se desenvolvermos muitas coisas por aqui, contrariamos “certos” interesses de “certos” países mui amigos.

    1. A dificuldade de começar um projeto nacional é muito maior do que comprar o projeto de sucesso e a sua licença para produzir.

      Gripen NG é um exemplo. Foi comprado o caça junto com transferência de tecnologia.

      Já o Submarino Brasileiro (pro sub) já tem 15 anos (ressalvada que não se compra tecnologia nuclear).

  2. O interessante é que os Cmts das FFAA nunca brigam por reajuste linear para tropa. Ainda falam em “família militar”. Que coisa heim !!!
    Por acaso, não existiu inflação desde Ago 2016 aonde eles vivem???
    * Ago de 2016 porque contar de Jan de 2019 não vale heim.👺👺👺

  3. Para um partido politico que arrombou a Petrobras em R$ 900 bilhões e, desde que assumiu em 2023, as estatais recomeçaram a dar prejuízo, R$ 1 bilhão é dinheiro de pinga.

  4. Os legalistas choram! Aceitem o legalismo de ocasião que dói menos ou comprem blindados de Angola, Venezuela, Cuba, Nicarágua, Bolívia e outras grandes potencias regionais.

  5. E bom esperar os ensinamentos da guerra da Ucrânia pra investir em algo. Esse mesmo povo ecemico disse que a Rússia ia vencer a guerra em uma semana

    Pouco se fala na corrupção no exército russo

  6. Cada viatura obuseiro dessa aí custará 27,77 milhões de reais. Vendo o que está acontecendo na guerra entre Rússia X Ucrânia, podemos depreender que esse tipo de obuseiro pode ser facilmente destruído por drones comerciais adaptados com explosivos convencionais e pilotados por guris sem treinamento militar algum, só com habilidades de pilotagem de drones.

    Vá às reservas de armamentos e vejam quantos carregadores sobressalentes de fuzis e pistolas há por militar e quantos equipamentos optrônicos existem. Obs.: quanto mais eficientes são os disparos usando os optrônicos, menos munição se gasta.

    FA que não se preocupam com os equipamentos básicos de uso individual, mas querem gastar com equipamentos complexos e de alto custo só “pra inglês ver”.

  7. Agora, o melhor investimento e em programas nacionais de tecnologia. Já passou do tempo de investir forte em uma universidade privada de tecnologia militar e outras tecnologias também. Deixar de se submeter a tecnologias estrangeiras como Starlink, navios, X (ops! Isso não entra) e outros. Nenhum país que almeja ser de primeiro mundo, negligência o potencial intelectual de seu povo.

  8. As Forças Armadas parecem ser as únicas instituições realmente preocupadas com a segurança nacional. Isso é motivo de preocupação, pois a proteção do país deveria ser uma prioridade compartilhada por todas as esferas da sociedade e do governo.

  9. Governo está certo. Deve-se prestigiar a economia nacional. Cria-se empregos com alto valor agregado e, se não tiver guerra (que é o mais provavel), fica a tecnologia e a riqueza dentro do país, nada se perde.

    Agora, tem muita gente que só gosta de apertar o botão sem pensar, fazer o quê? Ser submisso defendendo o opressor, mesmo que isso represente um tiro no seu próprio pé.

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