A anatomia de uma desfaçatez

Bolsonaro e o ex-ministro da Saúde Pazuello em ato organizado por motoqueiros no Rio — Foto: Jorge Hely/Framephoto/Estadão Conteúdo

Militares da ativa, como sabe qualquer manga-lisa, são expressamente proibidos de participar de atos políticos
Opinião ESTADÃO
Fim do sigilo sobre o processo militar contra Pazuello expõe a delinquência hermenêutica que o gestou e o quão baixo alguns militares desceram por um desqualificado como Bolsonaro

Por requisição da Controladoria-Geral da União (CGU) a partir de pedido do Estadão com base na Lei de Acesso à Informação, o Exército tornou público o processo disciplinar que instaurou para apurar a participação do general intendente Eduardo Pazuello em um comício do então presidente Jair Bolsonaro no Rio, em 23 de maio de 2021.

A rigor, nada havia a apurar, só a punir. As imagens do comício, com Bolsonaro e Pazuello discursando em cima de um trio elétrico, falavam por si sós. À época, Pazuello, hoje deputado federal, era oficial da ativa, e tinha encerrado sua catastrófica passagem pelo Ministério da Saúde havia dois meses.

Militares da ativa, como sabe qualquer manga-lisa, são expressamente proibidos de participar de atos políticos. A razão para essa vedação é tão óbvia que seria um desrespeito ao leitor destacá-la. Entretanto, o Exército não apenas livrou Pazuello de qualquer punição, em afrontosa violação da Constituição e do Estatuto dos Militares, como ainda impôs sigilo de 100 anos sobre o processo.

Se esse sigilo, per se, já era uma aberração, a razão que o motivou é uma das maiores vergonhas para o Exército. Como agora sabemos, de fato, nada foi apurado. O que houve foi uma deliberada operação de acobertamento de evidente transgressão militar, tão evidente que basta para explicar a tentativa de mantê-la em segredo por nada menos que um século.

Como se lê no documento agora tornado público, Pazuello, ciente de que estava prestes a violar a Constituição e o Estatuto dos Militares, teve o “cuidado”, digamos assim, de avisar o então comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, com um dia de antecedência, de que compareceria ao ato político convocado por Bolsonaro. Em depoimento, Pazuello disse que aceitou o convite feito por Bolsonaro por ter com ele “laços de respeito e camaradagem”, malgrado o fato óbvio de que se tratava de comício – o que, por definição, deveria ter desestimulado sua participação.

No processo, consta que o general Paulo Sérgio confirmou ter sido avisado pelo subordinado, mas não o que respondeu a ele. Nem precisava. A participação de Pazuello no ato, com direito a discurso em cima de um carro de som, é a evidência de que o intendente decerto não foi dissuadido pelo então comandante do Exército.

Registre-se que a maioria dos membros do Alto Comando do Exército defendeu a punição exemplar de Pazuello. A presença de um oficial da ativa naquele comício, uma transgressão militar inquestionável, era um ultraje à história de respeito às leis e à Constituição construída pelas Forças Armadas desde a redemocratização, além de configurar quebra da hierarquia e da disciplina, balizas da vida castrense. Entretanto, prevaleceu a vontade do general Paulo Sérgio. Pudera. Como punir Pazuello se, na véspera, o transgressor avisara seu comandante de que iria transgredir as normas militares e nada foi feito para impedi-lo?

Tentando justificar o injustificável para absolver Pazuello, o general Paulo Sérgio, que mais tarde se tornaria ministro da Defesa de Bolsonaro, concluiu que o discurso do intendente no trio elétrico não teve, ora vejam, “viés político-partidário” – como se oferecer apoio explícito ao então presidente da República diante de possíveis eleitores, que era ao que se prestavam as tais e frequentes “motociatas” de Bolsonaro, não fosse um ato político por definição.

A CGU acertou ao levantar o sigilo sobre o processo porque, a um só tempo, explicitou a anatomia de uma delinquência hermenêutica, cometida com o claro propósito de acobertar infrações militares irrefutáveis, e restabeleceu o princípio constitucional da transparência. Numa República democrática, como o Brasil, a regra é a transparência; sigilo sobre informações de interesse público só vale para casos excepcionalíssimos, definidos por lei e pela Constituição. Não era o caso da indisciplina do intendente Pazuello nem do acobertamento de seu comando na época.

Esse lamentável episódio é revelador de quão fundo foi o buraco em que parcela das Forças Armadas se dispôs a descer em nome de um desqualificado como Jair Bolsonaro.

ESTADÃO/montedo.com

Respostas de 13

  1. Porque o Capitão Montedo só coloca recortes da imprensa esquerdista? Opinião do Estadão, Folha de São Paulo, O Globo , Veja etc … Para Mim estes veículos e Uma Nota De Três reais são a mesma coisa …

    Aproveito a oportunidade para perguntar aos praças ( Em especial os da marinha ) que Votaram Em peso No Presidiário … e aí subtenentes E Sargentos, já tiveram aumento E Picanha?? 🤣🤣🤣🤣
    STEN ENG MARCOS PINTO , RIO DE JANEIRO.

    1. Não se passaram nem 2 meses e você quer que o presidente Lula dê aumento. Ou quer que o Lula faço em 2 meses que o Bolsonaro não fez em 4 anos. Tenho certeza que muita gente voltou e mesmo se não tiverem aumento e isso duvido não acontecer em 2024. Uma coisa é certa o pessoal não vai ter DECRÉSCIMO nos salários. E pode entrar quem quiser ninguém e ninguém vai conseguir ser pior que o ex presidente Jair Messias Bolsonaro o falso Messias o espalhador de fakes, ódio e que usa Deus em vão?

    2. Aprontaram todas, até tentaram de forma pouco velada, dar um golpe de estado e querem aumento. Os últimos reajustes foram justamente no governo do PT.

    3. Sub, que vergonha um praça defendendo com unhas e principalmente boca um general conhecido pelo seu total desrespeito com os subordinados, sem contar a total bagunça que Este senhor fez questão de instaurar no ministério da saúde, que vergonha Sub, um bom conselho para o senhor, vai dormir Sub Tenente.

  2. O problema é que o Falso meçias deixou todos numa sinuca de bico, as autoridades militares não tem como negociar com o governo, pois estão com os bolsos cheios, o governo não tem interesse em dar aumento. Enquanto isso o pracinha sofre os efeitos da inflação.

  3. Os Regulamentos Disciplinares das Forças Armadas, só é aplicada aos praças.
    Paraben a AGU por retirar essa aberração de 100 anos de sigilo.
    O EB se apequenou perante o Capitão desajustado .

  4. Esse assunto só se fechará quando houver punição para os envolvidos.
    O enquadramento é fácil, basta ter boa vontade de acertar, mesmo que para isso tenha de desagradar alguns grupos corporativistas militares, pouco afeitos à legalidade.

  5. Perfeito! Texto lúcido, objetivo!!

    Se me permitem, acrescentaria apenas mais do óbvio: o sigilo tinha o objetivo principal de evitar que todos soubessem o que qualquer recruta sabe: RDE e punição disciplinar foram instituídos apenas para praças.

    O resto é conversa para boi dormir.

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