Equador tem confronto com narcotráfico e presidente põe Exército nas ruas

Policiais fazem buscas no Equador após fuga de Adolfo Macías, o 'Fito' — Foto: AP/Dolores Ochoa

O presidente do Equador, Daniel Noboa, de 36 anos, enfrenta sua primeira crise após a fuga do chefe da maior quadrilha criminosa do país da Prisão Regional de Guayaquil, no domingo. Em apenas 48 horas, o governo decretou um estado de exceção, sete policiais foram sequestrados, tumultos foram registrados em presídios e ocorreram ataques com explosivos nas ruas. Nesta terça-feira, após a fuga de outro líder do narcotráfico e a invasão de um estúdio de TV por homens armados, Noboa emitiu um decreto para declarar Conflito Armado Interno em nível nacional, ordenando às forças militares que neutralizem as organizações criminosas envolvidas com o narcotráfico.

“São dias extremamente difíceis porque […] a decisão importante é enfrentar essas ameaças com características terroristas”, disse o secretário de Comunicação do governo, Roberto Izurieta, em entrevista ao canal digital Visionarias. A fuga de José Adolfo Macías Villamar, conhecido como Fito, acendeu a fagulha da crise. Considerado o criminoso mais perigoso do país, Fito é líder da facção Los Choneros, a maior facção do Equador. Desde 2011, cumpria uma pena de 34 anos por crime organizado, narcotráfico e homicídio. Fito teria fugido “horas antes” de uma operação de revista no presídio onde cumpria pena, segundo Izurieta.

Veja o momento em que TV foi invadida durante transmissão ao vivo:

O Ministério Público abriu uma investigação e pelo menos três mil homens foram mobilizados para capturar o fugitivo, cujo paradeiro ainda é desconhecido.

Na segunda-feira, o governo de Noboa decretou estado de exceção em todo o país para facilitar o trabalho das Forças Armadas. A decisão, afirmou, teria ocorrido em resposta às “tentativas dos grupos ‘narcoterroristas’ de nos amedrontar”.

O estado de emergência está em vigor durante 60 dias em todo o país, incluindo as prisões. A medida inclui um toque de recolher obrigatório de 23h às 5h para a população.

Mesmo com a medida, sete policiais foram sequestrados em Machala e na província de Los Ríos, ambas no sudoeste do país, e em Quito.

Houve também explosões contra uma delegacia, a casa do presidente do Tribunal Nacional e veículos incendiados. Não há relatos de mortes ou feridos.

Em um vídeo não verificado publicado nas redes sociais, três agentes aparecem sentados no chão. Um deles é obrigado a ler uma mensagem ao presidente: “Declarou guerra, e guerra terá […]. Declarou estado de exceção; nós declaramos guerra a policiais, civis e militares. Qualquer pessoa que estiver nas ruas a partir das onze da noite será executada”.

Noboa, que assumiu em novembro, é o presidente mais jovem da história do Equador. Filho de um dos homens mais ricos do país, o chefe de Estado chegou ao poder com a promessa de reprimir os grupos de tráfico de drogas ligados aos cartéis colombianos e mexicanos.

Entre 2018 e 2022, os homicídios quadruplicaram e atingiram 26 por cada 100 mil habitantes.

Nesta terça-feira, as autoridades relataram a fuga de outro líder do tráfico: Fabricio Colón Pico, um dos líderes de Los Lobos, preso na sexta-feira por sua suposta responsabilidade em um plano para assassinar a procuradora-geral.

‘Não vamos negociar’
Los Choneros competem com cerca de outros 20 grupos pelas rotas do tráfico de drogas, em uma guerra que mergulha o país em um banho de sangue. O Ministério Público denunciou dois agentes penitenciários por sua suposta responsabilidade na fuga do criminoso de 44 anos, que obteve o título de advogado na prisão.

A sede presidencial e as estações de metrô de Quito estão militarizadas. A declaração do estado de emergência permite que as forças armadas intervenham no sistema prisional, que na segunda-feira registrou a retenção de um número indeterminado de guardas. O órgão que o administra (SNAI) não indicou se foram libertados.

“Não negociaremos com terroristas nem descansaremos enquanto não devolvermos a paz aos equatorianos”, advertiu Noboa, num vídeo publicado na sua conta do Instagram.

O presidente atribuiu o ataque às prisões a uma retaliação pelas suas ações para “recuperar o controle” das prisões oficiais. Noboa anunciou na semana passada que construirá duas prisões de segurança máxima nas províncias de Pastaza, no leste, e Santa Elena, no sudoeste, no estilo das criadas pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele em sua guerra contra as gangues.

A decisão levou os povos indígenas da Amazónia a convocarem protestos pacíficos nesta terça-feira. Os grupos étnicos rejeitam o projeto prisional no seu território rico em biodiversidade e em petróleo.

Crise ‘sem precedentes’
Aos sequestros dos agentes na noite de segunda se somam explosões em Esmeraldas (nordeste e perto da fronteira com a Colômbia), uma das províncias equatorianas controladas por máfias. Várias pessoas lançaram um artefato explosivo perto de uma delegacia e dois veículos foram queimados em outros locais, sem deixar vítimas.

Em Quito, um carro explodiu e um dispositivo foi detonado perto de uma ponte de pedestres. O prefeito, Pabel Muñoz, pediu ao Executivo a “militarização” de instalações estratégicas ante a “crise de segurança sem precedentes”.

Localizado entre a Colômbia e o Peru, os maiores produtores mundiais de cocaína, o Equador deixou de ser uma ilha de paz para se tornar um forte de guerra às drogas. O ano de 2023 terminou com mais de 7,8 mil homicídios e 220 toneladas de drogas apreendidas, novos recordes no país de 17 milhões de habitantes.

Desde 2021, os confrontos entre presidiários deixaram mais de 460 mortos. Além disso, os homicídios nas ruas entre 2018 e 2023 cresceram quase 800%, passando de 6 para 46 por 100 mil habitantes.

Valor

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