Uma boa definição de coragem

General Tomás cumprimenta soldado

Em fala tornada pública, novo comandante do Exército expôs o mal que o bolsonarismo fez às Forças Armadas e enfatizou o essencial: ‘Coragem é se manter como instituição de Estado’

OPINIÃO DO ESTADÃO

Em 18 de janeiro, três dias antes de ser nomeado comandante do Exército pelo presidente Lula da Silva, o general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva fez um discurso de dez minutos no Comando Militar do Sudeste (CMSE), no qual defendeu a democracia, o respeito ao voto e a alternância de poder. “Quando a gente vota, tem de respeitar o resultado da urna”, disse.

Nesta semana, o podcast Roteirices divulgou uma fala do general Paiva, feita no mesmo dia 18 de janeiro, para seus subordinados no CMSE. Ao contrário do que alguns insinuaram, essa fala mais longa – tem cerca de uma hora de duração – é também profundamente democrática e em nada contradiz o discurso feito em público.

“A gente (Forças Armadas) participou da comissão de fiscalização (das eleições). Não aconteceu nada”, disse o general a seus subordinados, em referência às alegadas fraudes. E insistiu que o resultado deveria ser acolhido, ainda que tenha frustrado “a maioria” dos militares, como ele enfatizou. A mensagem é cristalina: as eleições foram limpas e o respeito ao resultado das urnas não poderia depender da concordância pessoal com o candidato vitorioso.

De resto, ao comentar que Jair Bolsonaro era o candidato da preferência da maioria dos militares, o general Tomás fez apenas uma constatação óbvia. Contudo, não faltou quem tirasse a declaração do contexto para fazer parecer que o comandante do Exército exprimia resistência pessoal ao presidente Lula. A leitura do inteiro teor da fala, no entanto, mostra que o general estava justamente alertando que a percepção pessoal de seus subordinados pode não corresponder à realidade do País. Desconstruía, assim, a narrativa bolsonarista da suposta fraude nas urnas. “Todos nós somos da bolha fardada, da bolha militarista, da bolha de direita, conservadora. A maioria de nós é dessa bolha, raramente um de nós frequenta outra bolha”, disse, defendendo que essa circunstância não pode interferir no funcionamento constitucional – ou seja, apartidário – das Forças Armadas.

Faz muito bem, portanto, o Palácio do Planalto em não cair na manobra dos que tentaram usar a divulgação da fala como pretexto para criar atritos e tensões com as Forças Armadas.

O aspecto mais relevante da fala do general Tomás a seus subordinados é a defesa das Forças Armadas como instituição de Estado, e não de governo. O áudio vazado é importante diagnóstico do mal que Jair Bolsonaro causou nos quartéis, com sua incessante tentativa de usar as Forças Armadas para fins político-partidários.

O general Tomás citou, por exemplo, o constrangedor episódio no qual o então presidente Bolsonaro tentou organizar uma motociata partindo da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). O plano só não foi realizado porque os generais “conseguiram convencer o presidente que não era uma coisa adequada ter uma motociata, que é um ato político de apoio ao presidente, dentro da academia militar”.

Além de criticar o desfile de blindados da Marinha em Brasília no dia da votação no Congresso da PEC do Voto Impresso, em 2021, e a tentativa de usar o desfile militar do 7 de Setembro para fins eleitorais, em 2022, o general Tomás lamentou o modo como Jair Bolsonaro tratou o comando das Forças Armadas. “No governo passado, tivemos uma coisa pouco usual que foram as três mudanças de comandante de Força. Passamos pelo general Pujol, depois o general Paulo Sérgio e depois o general Freire Gomes”, relembrou. Todas as mudanças ocorreram depois de desgastes políticos causados por Jair Bolsonaro.

Nada disso faz bem às Forças Armadas. “Política partidária dentro da Força gera desgaste”, disse o general Tomás. O alerta é necessário. Foi um tremendo erro de avaliação achar que “um mau militar” – nas palavras de Ernesto Geisel – poderia ser um bom representante dos interesses dos militares. A caserna não é para fazer política. Coragem não é fazer ameaça, seja de bomba em quartel, seja de golpe de Estado. “Coragem é se manter como instituição de Estado, mesmo que custe alguma coisa de credibilidade e popularidade”, disse o comandante do Exército. Mais constitucional e republicano, impossível.

ESTADÃO/montedo.com

14 respostas

  1. É, mas Nos últimos quatro anos esses mesmos estavam totalmente satisfeitos.

    A moda da “lacração”, subproduto do “politicamente correto”, invadindo as FA.

  2. Engraçado, para aprovar a Lei nº 13.954/2019, que beneficiou os oficiais superiores, e deu uma bola nas costa na turma de baixo, o BOLSONARO era bom, agora perdida a eleição, secou a teta, tá metendo o pau no ex-presidente.

    1. Secou que teta?
      Para de ser míope. Se não entendeu a porcaria do texto, releia
      Bolsonaro foi um excelente presidente… mas exagerou no direito de errar, blefar. Ameaçar, falar besteira e fakenews sobre urnas.

      Parabéns ao Gen pela lucidez e apreço a tudo q é republicano

  3. Querem nos fazer crer que não existe politicas de Estado ou não existe Estado sem politica? Pois é exatamente aí que está o perigo de, instituições de Estado, sem conhecimento politico, adernarem para qualquer banda, desde que permaneçam como enfeite na prateleira do Estado.

    E se não há politicas de Estado, todas as instituições sob comando do Executivo tenderão a seguir as diretrizes do governo em vigor. Exceções ao Legislativo e judiciário que, com o primor das leis e suas respectivas guardas deveriam seguir, por definição, qual tipo de Estado queremos, e isso é, sem dúvidas, desde muitas décadas, a indefinição do Estado Brasileiro, dito Republica com regime democrático mas com evidente viés atual de monarquia judicial, desde denuncia de Rui Barbosa.

  4. O novo 01 tem o que muitos perderam a muito tempo: os Culhões!

    Certo ou errado, torna-se opinião pessoal, mas expor a opinião dessa maneira precisa ter muita coragem.

    1. Coragem, agora, depois das eleições? Isso é oportunismo! Além do que foi indicado por quem está invadindo competências de outros poderes. Ficaram calados enquanto o poder Executivo, do qual fazem parte, era desmembrado em republiquetas estaduais e municipais, em plena pandemia, enquanto bilhões eram enviados a estados e municípios comprando respiradores que nunca foram entregues e montando e desmontando hospitais, sumindo com dinheiro do povo.

  5. Com outras palavras: Desconstrução de bolsonaro e do bolsonarismo. Só que política é como nuvem, vc olha está de um jeito, olha novamente, está de outro,isto é. Bolsonaro poderá voltar através do próximo excrutinio. ou no mínimo… um bolsonarista.

    1. Pode até ser, se modificarem as leis e permitir que um foragido da justiça participe das eleições, ou que um presidiário cumprindo pena possa concorrer.
      Quanto a um bolsonarista concorrer e ganhar, deixo a história ao longo dos próximos 4 anos dizer. Pois, a podridão dos Bolsonaros não apareceu no todo. A última trata-se do ridículo e humilhante contrabando joias para benefício pessoal. Teremos muito mais. Quero ver o que sobrará para defender o que hoje chama-se bolsonarismo.
      Uma solução para a extrema direita é se desvincular do bolsonaro e do nome bolsonarista, talvez, asssim, tenha alguma chance.

      1. Só podia ser bisonho. Bisonho e tosco, fundamentando opinião escrota na lama ne narrativa mentirosa. Vc não tem vergonha na cara de repetir essas lorotas? Não tem filho para encarar e ver que tipo de mundo vc está construindo para eles?

      2. Para vc pensar assim,deve ter chegado agora de uma galáxia bem distante ou viver no mundo de Nárnia. Só pode, pô! Falar em lei e duas mudanças é balela pois temos um “condenado” “descondenado” Alçado a presidente por seus puxadinhos da toga,mais sujo que puleiro de galinha. Então,esse papo não cola,pois política no Brasil é como adentrar em um curral: com um pé vc pisa na merda, com o outro na bosta. Quanto Às Jóias, vc precisa se Informar Melhor.

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