Alto Comando do Exército discutiu possibilidade de intervenção militar

Alto Comando do Exército se reuniu na primeira semana de agosto, em Brasília - Divulgação/Exército

Luis Kawaguti*
Depois de ser solto da cadeia em 2019, ter suas ações penais anuladas em 2020 e sua elegibilidade confirmada em 2021 pelo STF, Lula estava pronto para concorrer novamente à Presidência.
Tais decisões do STF foram consideradas por muitos cidadãos brasileiros como uma quebra do equilíbrio de poderes por parte do Judiciário. Por isso, quando Lula se elegeu em novembro de 2022, milhares de pessoas foram protestar em frente a quartéis do Exército, pedindo intervenção militar.
Muitos acreditavam de forma equivocada que o artigo 142 da Constituição permitiria às Forças Armadas restaurar a ordem no país, por iniciativa própria frente ao clamor popular. Essa era a tese do “contragolpe” ou do “reestabelecimento da ordem institucional”.
A hipótese foi debatida em reuniões do Alto Comando do Exército, um colegiado formado pelos 16 generais de exército e pelo comandante da força que decide os rumos da instituição.
Mas como funcionam essas reuniões?
Cada general é ouvido por seus pares e pelo comandante do Exército. Todos os generais podem expor suas ideias e argumentar sobre seus pontos de vista. Mas, isso acontece a portas fechadas. É praticamente impossível para analistas e para a imprensa saber detalhes do que aconteceu nas reuniões. O segredo dos debates por vezes é comparado ao sistema de escolha do papa no Vaticano.
Do lado de fora, no máximo consegue-se identificar algumas tendências que foram debatidas a partir de depoimentos “off the record” de participantes das reuniões — como este jornalista faz na presente coluna.
Desde novembro, militares da reserva e analistas políticos vêm divulgando em redes sociais, aplicativos de mensagens e na imprensa o rumor de que entre três e cinco generais teriam “impedido” a maioria do Alto Comando de fazer a intervenção militar.
Assim, generais foram chamados injustamente por manifestantes e ativistas em aplicativos de mensagem de “comunistas” ou “melancias” (apelido pejorativo que acusa militares de tentarem aparentar ser de direita e esconder ideologia de esquerda. A analogia é que a melancia é verde por fora e vermelha por dentro).
Talvez aquele que tenha ganho mais repercussão na imprensa foi o comentarista político Paulo Figueiredo, que divulgou um suposto placar de votação pela intervenção militar que teria acontecido no Alto Comando.
De fato, houve divergências de ideias entre os generais da cúpula do Exército sobre o tema. Mas, diferente do que foi alegado nas redes sociais, o Alto Comando não precisa fazer votação nem tem necessidade de chegar a um consenso para tomar suas decisões.
Só há uma situação em que os generais precisam votar para chegar a uma conclusão: no processo de escolha de novos generais de exército a fazer parte da cúpula. Não era o caso.


Nos demais assuntos, a votação não é obrigatória. Pode até ocorrer informalmente mas, na prática, cada general expõe suas ideias e, independentemente da maioria, no final quem toma a decisão é o comandante do Exército. Essa decisão passa a ser então a posição de todos os membros do Alto Comando.
Por isso, não é possível dizer que um grupo minoritário de oficiais impediu a suposta intervenção militar, conforme diziam os rumores. Há várias hipóteses para explicar a formação desses rumores. Entre elas estão: indignação de parte da população e de militares da reserva com a situação do país, tentativas de dividir e enfraquecer o Exército, falhas de jornalistas no processo de apuração da notícia ou mesmo uma tática de ativistas para tentar forçar o Alto Comando a optar pela intervenção militar.
Talvez nunca se saiba de onde esses rumores vieram e quais generais foram a favor ou contra o pedido dos manifestantes por intervenção. O que se sabe é que, apesar de entender a aflição que motivou os manifestantes que se reuniram nas portas dos quartéis, o Alto Comando decidiu não atender os pedidos por intervenção.
O então comandante Freire Gomes chegou a determinar em novembro a divulgação de uma nota interna afirmando que o Exército permanecia coeso e unido.
Ou seja, prevaleceu no Alto Comando a posição de que o Exército não pode ser um ator político. Um fator que pesou nessa decisão está relacionado à norma constitucional que determina que o Exército tem que ser acionado por algum dos poderes — Executivo, Legislativo ou Judiciário — para atuar em cenários de garantia da ordem institucional. Como nem Bolsonaro nem o Congresso fizeram tal pedido formalmente, o Exército não poderia agir por iniciativa própria. E se o pedido tivesse ocorrido, certamente também teria sido debatido no Alto Comando.
Mas por que estamos falando apenas do Exército? Bom, na prática, a força armada com maior poder de ação num cenário eventual de intervenção seria o Exército. Com menores efetivos e meios, Aeronáutica e Marinha desempenhariam papel secundário.
O almirante Almir Garnier Santos foi comandante da Marinha durante a gestão de Bolsonaro e se recusou a passar o cargo para seu sucessor, o almirante Marcos Sampaio Olsen. Seu ato foi ovacionado pelo segmento de cidadãos e militares da reserva que defendiam a intervenção militar.
Segundo essa visão equivocada dos manifestantes e militares da reserva — motivada em parte pelos abusos políticos que vêm ocorrendo no país —, Garnier teria sido o único comandante que teve coragem para se opor a Lula e ao STF, não cedendo ao suposto corporativismo de seus colegas.
Porém, sob outra interpretação, a atitude dele desautorizou tanto o novo comandante da Marinha como os comandantes do Exército e da Aeronáutica. Quando a liderança militar é enfraquecida, aumenta a possibilidade de insubordinação e violência.
“Às vezes você quer fazer algo, mas não pode porque faz parte de uma instituição. O individualismo não pode prevalecer”, disse um dos militares da ativa ouvidos por este colunista sob anonimato. Segundo ele, esse é o significado de hierarquia e disciplina.
Para os militares da reserva ou os manifestantes é fácil pedir medidas radicais como uma intervenção militar — até porque eles não serão responsabilizados formalmente nem arcarão com o peso moral das consequências.
Isso não significa, porém, que os militares de alto escalão estejam apoiando a esquerda no Brasil. Pelo contrário, a maioria daqueles com quem conversei estão insatisfeitos com o novo governo e especialmente com a posição que o STF tem adotado de investigar e ao mesmo julgar praticamente qualquer tipo de assunto.
Eles também desconfiam do tipo de relações políticas que o atual governo pretende estabelecer com outros governos de esquerda da América do Sul.
Assim, o fato da equivocada mobilização por intervenção militar ter se esvaído por ora não dissipou a onda generalizada de descontentamento.
No momento, muitos militares dizem que preferem se voltar para as atividades internas das Forças Armadas, mantendo a esperança de que o Congresso que começará a funcionar em fevereiro possa trazer equilíbrio à nação.
Enquanto isso, o Exército deve continuar mantendo os princípios de hierarquia e da disciplina.
*Jornalista especializado nas áreas de Defesa, Segurança e Política Internacional. Trabalhou na BBC World Service e prestou serviço para agências internacionais de notícias. No Brasil passou pelas redações de Veja, Diário de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL. É autor do livro “A república negra” (Ed. Globo, 2006) sobre a missão de paz da ONU no Haiti.
GAZETA DO POVO/montedo.com

18 respostas

  1. As FFAA devem reconhecer que foi um erro apoiar incondicionalmente Jair Bolsonaro. Perdeu a direção das suas atribuições e a dosagem das na aplicação da força.
    Aparecemos, hoje, perante a sociedade, como golpistas e intervencionistas e, o que é pior, sem nenhuma necessidade, pois não somos (e nunca fomos) poder moderador de nada.
    Para que isso cesse, só através da punição de quem fez bobagem. Se não tiver punição para os prevaricadores, não seremos bem vistos, o que não é justo com a tropa, que depende de bons salários para ter uma vida digna e manter o mínimo de estabilidade para a família. Não queremos e não devemos pagar poucos que se davam bem.

  2. Olá amiguinhos tudo bem com vcs?

    Aqui quem fala é o QE CHORÃO!
    Bom dia a todos a todas e a TODES.

    O pessoal prejudicado foram nós que não fizemos concurso e fomos estabilizados, ganhamos Mais Do que qualquer outro civil da iniciativa privada ganharia aposentado, muitos de nós fomos com um posto a cima…
    E tem também, algumas pensionistas que
    mesmo casadas (com médicos, Desembargadores, empresario…) desta forma burlando a legislação, foram prejudicadas também.

    E tem mais, quem estudou para ganhar a mais e tudo puxa saco mesmo. Hehehehehe

    Pode parecer incoerente minha linha de raciocínio. Mas eu não tou nem aí eu quero é me dar bem. Nem que eu tenha que defender pai lula.

    Afinal de contas eu sou o QE CHORÃO faço parte do Quadro Especial dos Reclamões Anônimos e estou a 0d 0m 0a sem reclamar.

  3. ´´ REVOLTA, INSATISFAÇÃO, INDIGUINAÇÃO, DESESPERANÇA ETC ETC… “ Caros amigos do Montedo é indiscutível ,frente o que se apresenta no cenário social ,político ,econômico , do BRASIL ; venha de onde vier ,fale quem acha que pensa que sabe informar ,manifestar e afirmar com absoluta precisão os fatos que ocorrem no quadro atual do brasil. “ nÃO SABEM , NÃO TEM NENHUMA AUTORIDADE DOMINANTE , NÃO SE SABEM QUAL O RUMO QUE O BRASIL VAI TOMAR . NÃO SE PODE AFIRMAR QUE EXISTE UM GOVERNO EM PODER, NÃO SE SABE E SE CONFIA SE RESPEITA A CONSTITUIÇÃO EM , NÃO SE TEM NENHUMA CONFIANÇA NOS TAIS PODERES PERMANENTES ( EXECUTIVO ,LEGISLATIVO ,JUDICIÁRIO. O QUE SE VÊ POR TODOS OS 36O °. DE VISÃO QUE DOMINA É O CAOS.
    cABE PERGUNTAR CAROS AMIGOS. QUEM SÃO OS CULPADOS DE TEREM CONDUZIDO O BRASIL PARA ESSE MOMENTO ? aLGUÉM DOS AMIGOS ARRISCA , ONDE ISS VAI ACABAR. Eu tenho, por minha vivência profissional, um prognóstico mas manterei reservado.

      1. Isso Mesmo, é a mesma coisa de vc pedir pra sua mulher dizer eu te amo pra Vc. Tem que vim naturalmente e espontâneo. O povo tem que sofrer pra saber tomar vergonha na cara, só saindo dessa ignorância cultural implantada a vitória depois Será unânime .

  4. Que bom que a democracia é a menina dos olhos dos estados Unidos da América. Isso sepultou devaneios aqui no Brasil e com isso, os sonhos de muitos caquéticos foram água abaixo. Doutrina Monroe: América para os americanos. Democracia sempre!!!

  5. Em menos de um mês, o atual governo só tomou decisões que beneficiam seu partido e o judiciário. O povo brasileiro não é Prioridade! afinal de contas “nós do PT teremos que desagradar o Mercado”. (LULA)

  6. Imprecionante.
    A Globo e stf conseguiu incutir na cabeça das pessoas q os pedidos de intervenção ou algo q o valha, foi por conta da derrota de JMB.
    O problema, foi a vitória de Lula. Se tivesse perdido até para o Tiririca, não haveriam protestos.
    A vitória de Lula foi fabricada pela Globo e seguida pelas demais mídias e pelo STF. E lula só está aí porque era o único caudilho q tinham, q era capaz de roubar votos. Foi uma campanha agressiva e ferrenha de no mínimo três anos.
    Bom ou não, bronco ou não, mexeu com muitos Interesses de poderosos!
    Tinha q ser Tirado.

    1. Vamos ver o que as FA irão fazer quando o Lule começar a mexer com eles. Desautorizar, sucatear, desvalorizar e por fim extinguir, esse é o objetivo do pt.

  7. Golpe é golpe e é crime!!! Então, cadeia para oas golpistas! A lei que criminaliza uma ameaça de golpe foi criminalizada no governo do Bolsonaro. Que ironia!! Ele tinha certeza Que o golpe de estado ia dar certo, então ele quis se precaver caso o povo quisesse retomar o poder. O tiro saiu pela culatra.

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