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A guerra é insana e irracional

Otávio Santana do Rego Barros*
Está difícil apresentar novas perspectivas sobre o conflito na Ucrânia. A guerra chegou ao chamado ponto culminante, teoria de Clausewitz na qual o atacante precisará reavaliar o seu planejamento estratégico e tático para manter ou recuar de suas pretensões.
São inúmeros analistas, em todos os think tanks espalhados pelo mundo, que, ajudados pela tecnologia e pelos Apps de mídias sociais, conseguem compor um quadro do conflito e apresentá-lo, de suas poltronas, para a discussão pública como se fosse produto acabado.
Isso é interessante, mas também banaliza o assunto, transformando corpos e escombros em temas de mesa de bar, desvalorizando-o intelectual, ética e moralmente a cada gole de bebida.
A guerra é insana e irracional.
Insana porque seus elementos predominantes são a morte e a destruição.
Irracional porque os países sabem que ao se envolverem nos conflitos jogam as últimas fichas em um único número da roleta viciada da geopolítica mundial.
Talvez se possa voltar ao ponto de partida (ao menos o definido como o fim da guerra fria) e reavaliar erros e acertos das potências mundiais e das organizações multilaterais, que assumiram a condução das relações entre Estados em nosso planeta.
Já sabemos o que deu errado.
O fim da história (propagado por Francis Fukuyama) com a supremacia da democracia ocidental e do capitalismo não se consolidou. Muito pela soberba das lideranças mundiais.
Foram desconsideradas questões seculares como a cultura, a raça e a religião que, até certo ponto, estão consolidadas e que não mudarão ao simples desejo dos ocidentais.
Foram esquecidos aspectos econômicos que impulsionam e mantêm vivos os mercados entre tribos, comunidades e nações.
Foram olvidadas facetas de comportamento que não são passíveis de alterar-se, já que estão no DNA das diversas civilizações.
Chegamos à adolescência do século 21 diante de uma crise existencial e mortal (afinal o temor pelo conflito nuclear retorna a nos importunar) na qual as lideranças não estão dispostas a ceder.
Onde os cordões do destino podem ser mexidos para acalmar a marionete que representa os nacionalismos supra ideológicos a gritar em seu palco por guerras?
No fio do desarmamento? Talvez, mas da primeira vez não deu certo.
No fio da cooperação? Creio que sim, mas será preciso abafar o egoísmo dos privilegiados.
No fio da economia? É possível, desde que as trocas sejam justas e diminuam o abismo que afasta países ricos dos remediados.
No fio da educação? Certamente, pois com o conhecimento disseminado, as soluções aos problemas se revelarão mais rapidamente.
No fio que desarma os espíritos?
Chegamos ao cerne do desafio. O que reúne e sintetiza todos os outros.
Já se passaram mais de dois séculos desde que Voltaire expressou sua angústia e insatisfação contra a injustiça da realeza francesa e católica que condenou ao patíbulo o senhor Jean Calas por um crime que não cometeu.
A obra do filósofo, TRATADO SOBRE A INTOLERÂNCIA, deveria ser publicada como folhetim para fazer chegar aos líderes mundiais o sentido de conviver com os divergentes sem estocá-lo com o punhal das ogivas nucleares.
Utopia seria a palavra para a proposta. Reconheço.
Os analistas de conjuntura, historiadores, cientistas políticos e outros estudiosos logo se levantarão em defesa da Realpolitik.
Afinal os fortes fazem o que desejam e os fracos se submetem, como asseverou o emissário grego aos melianos em passagem da História da Guerra do Peloponeso, escrita por Tucídides.
Mas, quanto custa sonhar pela loteria da sensatez? Poucas moedas. E, se não ganhamos, podemos ainda continuar sonhando.
Paz e bem!
*General de Divisão da Reserva
METRÓPOLES/montedo.com

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