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Mensagens mostram a proximidade do ex-ministro com uma amiga que, sob sua orientação, começou a ver os seus negócios despontarem

Ricardo Chapola
Pelas salas de aula da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no Rio de Janeiro, passaram muitos dos mais destacados oficiais do país. Nos últimos quarenta anos, a instituição formou nada menos que sete comandantes do Exército, incluindo o atual, general Paulo Sérgio de Oliveira, três ministros da Defesa, com o general Braga Netto na conta, sete chefes do Gabinete de Segurança Institucional, com o general Augusto Heleno na lista, e também o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, e o presidente Jair Bolsonaro, que foi cadete na década de 70. Com mais de 200 anos de história, a academia é considerada uma das instituições de ensino militar mais tradicionais e respeitadas do Brasil. “A Aman dedica especial atenção à formação ética e moral dos cadetes, no intuito de entregar ao Exército oficiais que se destaquem pela integridade, honradez, honestidade, lealdade, senso de justiça, disciplina, patriotismo e camaradagem”, informa o site da instituição.

“LARISSINHA” - A arquiteta Larissa Denardin de Mesquita: contratos na Aman após a intervenção do ex-ministro – Cristiano Mariz/.

O general Eduardo Pazuello, ex-­ministro da Saúde e atualmente assessor da Presidência, também estudou na Aman. Mas a visão que ele parece ter sobre o funcionamento de certos mecanismos na respeitada academia combina, no máximo, com uma das virtudes apregoadas acima — a camaradagem. Em 2013, uma amiga do general, arquiteta, estava encontrando dificuldades para se habilitar a prestar serviços e participar de licitações promovidas pelo governo federal. Larissa Denardin de Mesquita, esposa de um major próximo a Pazuello, também não conseguia se registrar na Inspetoria de Contabilidade e Finanças do Exército, o que a impedia de ter qualquer relação comercial com a Aman. No dia 13 de março daquele ano, a arquiteta se enfureceu e desabafou com o amigo: “Dá vontade de mandar todo mundo…”, escreveu numa mensagem a que VEJA teve acesso. “Povo enrolado”, disse, se referindo aos militares da Aman. “Vou ter que tomar um anti-ácido (sic)…isso acaba comigo”. E encerrou: “Pachaquelo, Pachaquelo!”.

“POVO ENROLADO” - Na mensagem, a arquiteta reclama de dificuldades com a burocracia do Exército, Pazuello faz referência à necessidade de um padrinho e se propõe a ajudar — dizendo que, no caso, seria ele mesmo.

Pazuello só responderia algumas horas depois. “Larissinha, o sinal aqui é uma m…”, justificou, sugerindo à amiga que refizesse o cadastro na Aman. “As coisas só acontecem quando vc tem um padrinho. No caso deve ser eu mesmo…”, tranquilizou, explicando que no dia seguinte estaria no “palácio” e que ligaria para ela assim que conseguisse sinal. Não fica claro na mensagem a qual palácio o general estava se referindo — provavelmente ao Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro. Na época, ainda coronel, Pazuello ocupava o cargo de assistente do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), responsável pela coordenação de projetos, alguns deles na própria Aman.
Depois que o então coronel se comprometeu a assumir a condição de “padrinho”, o fato é que os negócios da arquiteta começaram a fluir. Segundo o Portal da Transparência, o primeiro contrato de Larissa, no valor de 8 000 reais, conquistado sem licitação, previa a realização de estudos, prestação de serviços de consultoria em arquitetura e “implementação de medidas necessárias para adequar os estabelecimentos de ensino”. Na se­quên­cia, a arquiteta fundou a YEX Arquitetura e Design e, nesse período, assinou pelo menos mais três prestações de serviços com o comando do Exército, todas sem licitação. No ano passado, ainda de acordo com os registros oficiais, a empresa foi novamente agraciada: mais 16 000 reais por um projeto de revitalização da sede da guarda da Bateria Mallet, corpo de artilharia montada do Exército.
Embora alguns laços tenham se estreitado ainda mais, um imprevisto afastou geograficamente o padrinho da afilhada. Em abril de 2020, Pazuello foi convidado pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde e mudou-se para Brasília. Cinco meses depois, em setembro, a arquiteta foi contratada pela Fundação de Estudos e Pesquisas Socioeconômicos (Fepese), entidade privada que desenvolve um projeto financiado pelo Ministério da Saúde para aperfeiçoar mecanismos de gestão de hospitais no Rio de Janeiro, e recebe um salário de mais de 8 000 reais. A instituição, sediada em Santa Catarina, não quis informar detalhes do contrato nem como foi o processo de seleção da arquiteta. Mas, em seu perfil no LinkedIn, ela passou a se apresentar como especialista em planejamento de negócios do ministério. Procurada pela r

eportagem, Larissa de Mesquita não foi localizada.
Apesar de ter saído dos holofotes, após a demissão por péssimo desempenho no ministério, Pazuello ainda priva da confiança de Bolsonaro. Em outubro de 2021, ele assumiu a função de assessor especial do presidente, o que lhe permitiu manter seu soldo de aproximadamente 20 000 reais, mais 9 100 da nova função gratificada. Desde que chegou à Secretaria de Assuntos Estratégicos, onde está lotado, pouco fez — ao menos oficialmente. De junho de 2021 até o início desta semana, a agenda do ex-ministro contabilizava apenas dois compromissos. Uma das últimas tarefas relevantes foi a preparação de um planejamento logístico (sua suposta especialidade) voltado para a campanha de reeleição de Bolsonaro. Fora isso, Pazuello passa o dia numa discreta sala do quarto andar do Palácio do Planalto. Recentemente, comentou com um amigo que deve ir para a reserva no próximo mês. Sua ideia é disputar uma cadeira de deputado federal pelo Rio de Janeiro, contando com o apoio dos militares e do presidente Bolsonaro. O voto da afilhada, “Pachaquelo” certamente terá.
Publicado em VEJA de 16 de fevereiro de 2022, edição nº 2776
RADAR(Veja)/montedo.com

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