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Como no episódio com Orson Welles em 1938, rádio veiculou versão de ‘A Guerra dos Mundos’, que levou pânico ao Maranhão e mudou rota de esquadrilha; ditadura fechou emissora temporariamente, no incidente que faz 50 anos neste sábado

Wilson Tosta
O povo de São Luís constatou, na manhã de 30 de outubro de 1971, que o fim do mundo tinha chegado. A capital maranhense era atacada por seres vindos de Marte, invencíveis e triunfais. Com um raio de calor, destruíam tudo e espalhavam terror e morte . Transmitida pela Rádio Difusora, líder de audiência na cidade, “em cadeia” com a Rádio Repórter, do Rio, também sob ataque, a “cobertura” do avanço dos invasores semeou pânico. Muitos maranhenses foram para casa, para morrer com a família; outros buscaram igrejas para a hora do Juízo Final que chegava. Até um grupamento da Aeronáutica, que sobrevoava o município, alterou sua rota. A “invasão”, porém, era uma adaptação de A Guerra dos Mundos (1898), do britânico H. G. Wells (1866-1946). Só havia marcianos na criatividade dos produtores. A emissora carioca não existia. A maranhense ficou fora do ar temporariamente. O episódio faz 50 anos neste sábado, 30.
“Uma esquadrilha da FAB de Belém/PA captou a notícia quando em voo sobre S.Luiz, retornando à sua base, muito embora se destinasse a outro local”, afirmou em 8 de dezembro de 1971, em tom de irritação, o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA).
Na Informação Nº 200, guardada no Arquivo Nacional, o CISA descreveu a crise. Segundo o documento, classificado originalmente como confidencial, o “programa chegou a dar minúcias da situação, anunciando que: EUA e URSS já estavam engajados na luta atômica; no Brasil, o Exército estava em prontidão, achando-se o 24º BC (S. LUIZ) recolhido ao quartel; um engenho de 30 metros de diâmetro caíra nas redondezas e uma nuvem de poeira começava a cair sobre a cidade”. O texto informava que a “divulgação dessas notícias causou pânico em todo o Estado, tendo o Comandante do 24º BC recebido inúmeros telefonemas de pessoas aterrorizadas”.
Origem do relatório, o CISA era um órgão de repressão política ligado à Força Aérea Brasileira na ditadura militar O regime vivia então o seu auge, sob a presidência do general Emílio Garrastazu Médici, com tortura, desaparecimento e morte de opositores.

Repórter transmitiu a própria ‘morte’ por raio de calor
O programa do Maranhão provocou abalo semelhante ao gerado nos EUA 33 anos antes por sua primeira versão – na qual a Difusora se inspirou. Comandada, na véspera do Halloween de 1938, por Orson Welles (1915-1985), a produção americana entrou para a história por ter levado pânico sobretudo a Nova York e Nova Jersey. Com elementos locais, a realização maranhense tinha um pouco dessa adaptação que Welles fizera do livro de Wells. O escritor britânico era um socialista ligado à Fabian Society, defensora de uma estratégia gradualista para superar o capitalismo. A invasão extraterrestre era uma metáfora do colonialismo inglês. Na narrativa, o autor colocava os homens brancos e “civilizados” na situação dos povos – como africanos e orientais- dominados por invasores com tecnologias bélicas mais avançadas.
“Está todo mundo bem longe; professor Galvão (um entrevistado fictício) ainda está perto do objeto, examinando, examinando… mas isso me parece muito perigoso”, narrou, na transmissão maranhense cheia de chiados, o repórter J. Alves. Muito conhecido e popular, ele fazia o papel de si mesmo e dizia estar no Campo de Perizes. Ali, um imenso cilindro teria caído do espaço, diziam boletins falsos da rádio. “A coisa estremece como se fosse soltar algo”, disse Alves. “Tudo aqui por perto está começando a vibrar! É incrível, meus amigos! Está tudo se incendiando… Está saindo um jato de fogo do objeto… Está tudo se incendiando…”
A interrupção da transmissão sinalizou a tragédia: o jornalista teria morrido – heroicamente, no exercício profissional. O que foi “confirmado” pelo procedimento do locutor, que, inicialmente, chamou o repórter várias vezes, recebendo apenas estática como resposta. Depois disse, em tom dramático que, por motivos alheios à sua vontade, (os produtores) seriam obrigados a interromper as transmissões de Perizes.
“Ao que tudo indica, houve problemas com nosso repórter J. Alves e o técnico Heracias Bezerra”, continuou o locutor. “Informamos às famílias desses companheiros que estamos tomando todas as providências, no sentido de trazê-los para São Luís, caso estejam acidentados. Pedimos a todos que se mantenham calmos, pois de nada vai adiantar o pânico.”
Mais adiante, informou: “Somos obrigados, a partir de agora, a rodar música clássica”. Na época, este era um sinal de luto na comunicação radiofônica. Ouve-se então a Sinfonia em Ré Menor, de Cesar Franck. Felizmente, era tudo mentira: não havia,claro, marcianos, e J. Alves estava bem vivo, longe de Perizes, em uma unidade móvel perto da Difusora. Mais: a chiadeira era proposital, um recurso dos técnicos. Dificultava o entendimento e dava mais realismo à fantasia.
Até a morte simulada de Alves, a programação musical seguia normalmente, enquanto os extraterrestres, nas “notícias” veiculadas entre as canções, “destruíam” a humanidade. Sucederam-se Paul Anka (Do I love you?), Antônio Carlos e Jocafi (Desacato), The Tremeloes (My Woman), José Augusto (Final de um grande amor), Tim Maia (Preciso aprender a ser só), Márcio Greick (Impossível acreditar que perdi você) e outros. Mesmo assim, muita gente não desconfiou.


De acordo com pesquisa da Universidade Federal do Maranhão, com depoimentos dos participantes e transcrição da gravação, a “cobertura” tinha começado entre 7h e 7h30 (há divergências sobre o horário, e essa parte não foi gravada). O início foi uma entrevista fictícia com o “professor Galvão”, que estaria investigando o pouso de naves espaciais no litoral maranhense. O “cientista” era interpretado por um ator, Reynaldo Faray, entrevistado pelo apresentador Bernardo Mello – outro que representou seu próprio papel, dando realismo à brincadeira.
Segundo a edição do Estadão de 2 de novembro de 1971, o comércio do centro de São Luís parou. Ocorreram choro, desmaios, abraços de confraternização, aumento de atendimento nos serviços de pronto-socorro. Os telefones da emissora não paravam. O trabalho da UFMa aponta que um oficial da Polícia Militar avisou à Difusora que poria a tropa na rua, mas desistiu quando lhe explicaram a verdade. Um pastor reclamou na rádio que a transmissão o obrigou a sentar com a família para ler o Apocalipse.
Descoberta a verdade, houve quem falasse em dar tiros nos responsáveis, por provocar problemas de saúde em idosos e cardíacos. Muitos foram para a emissora reclamar. No início da tarde, mesmo após o cumprimento de ordem militar de transmitir uma nota de esclarecimento a cada meia hora, a rádio e a TV Difusora foram fechadas e silenciadas pelo Exército.
“Impôs-se retirar a emissora do ar, decisão estabelecida em reunião do Comandante da Guarnição com Juizes Federais, Procurador da Justiça Estadual e Delegado da Polícia Federal”, relata o documento do CISA.

Crenças da população aproximaram ‘invasão’ de fim do mundo
Doutor em Comunicação e Cultura e professor da Universidade Federal do Maranhão, Francisco Gonçalves da Conceição aponta diferenças entre a transmissão maranhense e a norte-americana. O trabalho comandado por Orson Welles era explicitamente uma peça de dramaturgia radiofônica. (Tratava-se de uma adaptação do livro de Wells, no The Mercury Theatre on The Air na CBS.) Já o programa da Difusora teve formato jornalístico. A participação de profissionais conhecidos da população aumentou a repercussão do noticiário falso na cidade.
“Em São Luís, a população resolveu ir para casa, identificando, assim, a chegada dos alienígenas como o fim do mundo, o fim do tempo”, diz o professor, organizador do livro Outubro de 71 – Memórias Fantásticas da Guerra dos Mundos. O trabalho, elaborado por estudantes da Universidade Federal do Maranhão, foi lançado em 2011, com depoimentos de integrantes da equipe de produção. “É uma grade de interpretação diferente da dos Estados Unidos. Isso é importante porque leva em conta também o contexto de recepção do programa, bastante diferente do contexto norte-americano. Sobretudo no catolicismo popular, o encontro do catolicismo com as religiões de matriz africana e as cosmologias presentes nas histórias da ilha.”
Gonçalves lembra que lendas do Maranhão falam do fim de São Luís. Uma dessas histórias aponta a existência de um touro encantado, com uma estrela na testa, que, quando for varada por uma espada, provocará a volta de D. Sebastião I, O Desejado (1557-1578), rei de Portugal morto na Batalha de Alcácer-Quibir, no Século XVI. Sua Majestade sairá do mar, que subirá em grandes ondas e cobrirá a cidade. Essa crença remete ao sebastianismo português, que floresceu como forma de repúdio à União Ibérica, com a Espanha, de 1580 a 1640. Outra história afirma que uma serpente, encantada e gigantesca, em túneis subterrâneos, rodeia a cidade. Quando essa imensa cobra morder seu rabo, dizem, a ilha afundará. Foi com esse imaginário que, curiosamente, o programa inspirado em Welles teria se combinado, acredita o professor.
Aos onze anos em 1971, no Anil, então periferia rural da capital maranhense, Gonçalves viu a mãe conversando com uma vizinha sobre a invasão. Relacionavam-na ao fim do mundo, que causava tumulto e levava muita gente a acender velas, e às lendas. O bairro recebeu luz elétrica entre o fim dos anos 60 e início dos 70, em um processo que atingiu outras áreas periféricas. A cidade não era grande: no Censo de 1970, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lhe atribuiu pouco mais de 270 mil moradores. A maioria era pobre e pouco escolarizada. O rádio dominava a comunicação, mas o avanço da eletricidade e a disseminação de televisores já ameaçava essa hegemonia. Para Gonçalves, o programa foi uma reação a isso, em busca de audiência.
“Os profissionais de rádio eram muito prestigiados do ponto de vista político e cultural”, afirma. “Então, eles sentem também individualmente que o lugar de prestígio deles estava abalado.”
O professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Alexandre Busko Valim, doutor em História, compara o que aconteceu noi Maranhão em 1971 às atuais fake news. Autor de artigo sobre várias versões que A Guerra dos Mundos teve em todo o mundo, ele diz que o rádio, no passado, era como o WhatsApp hoje, a única fonte de informação de muitos. Também destaca a importância dos comunicadores, que eram prestigiados e deram um toque de realidade à fantasia.
“Eu não consigo desconectar essas três coisas”, diz. “A força do meio, que chega longe, tem um alcance muito grande; o prestígio dos mediadores, na cidade ali, que estão fazendo isso; e uma população que está muito à mercê dessas influências. Uma população suscetível.”

Vinheta falsa evitou punições
Depois que o programa acabou, diante da crise que se instalara na cidade – comércio fechado, bares vazios, negócios parados – foi inserida uma vinheta na fita do programa. Dizia: “Difusora, em tempo de ficção científica´, baseada em Orson Welles”. A apresentação da fita – adulterada, como se aquele aviso tivesse ido ao ar durante o programa, o que não ocorreu -, e o fato de a Censura, da Polícia Federal, ter autorizado a transmissão livraram a rádio de punições mais duras do que o fechamento com interrupção de sinal por algumas horas. A investigação, porém, durou três anos.
O truque salvador foi mais um do sonoplasta José Ribamar Elvas Ribeiro, o Parafuso, responsável por boa parte dos efeitos da transmissão. Ele e o ex-diretor técnico Manoel José Pereira, o Pereirinha, são os dois únicos integrantes da equipe vivos. Pereirinha não foi localizado. Aos 90 anos e debilitado, Parafuso não pode dar entrevista. Um dos filhos de Parafuso, o d.j. Haroldo José Barroso Ribeiro, lembra como o pai recordava aquele dia.
“Ele sempre contava isso aí em tom de brincadeira, a brincadeira que foi feita e o pessoal levou a sério.”

Programa usou recursos jornalísticos para a brincadeira
“Um cigarro e um café”, cantava Altemar Dutra, pouco após as 9h da manhã de 30 de outubro de 1971, em uma música gravada, vigésima-terceira colocada no São Luiz Hit Parade, com as 24 músicas mais pedidas da semana. O programa era comandado nas manhãs de sábado pelo locutor Rayol Filho – seu apelido era “Paradão do Rayol”. Foi quando entrou a vinheta com o bordão em tom triunfal -“O fato aconteceu, é notícia na Difusora, a mais poderosa emissora do norte do Brasil!”-, seguido do toque de clarins. Usual nos boletins extraordinários da emissora, o anúncio deu clima de realidade à piada concebida para celebrar o aniversário de dezesseis anos da rádio (que ocorrera no dia 29) e mostrar a força do meio. Mas geraria muitos problemas, com fechamento também da TV Difusora e até ameaças à concessão.
O “fato” anunciado pela vinheta era uma (inexistente) série de explosões de hidrogênio que teriam sido observadas em Marte, segundo “o professor Fareell, do Observatório de Monte Palomar”. Partículas estariam viajando para a Terra “em velocidade fantástica”. O fenômeno teria sido confirmado por outro cientista inventado pelos produtores, Mário Corteline, do Observatório Nacional. Ali já havia uma pista para os iniciados. Explosões na superfície marciana ocorrem no início do romance de H. G. Wells. A partir de então, sucederam-se entrevistas com personagens fictícios (alguns eram “cientistas” de araque), acontecimentos inusitados (queda de cilindros gigantescos, mobilização de forças armadas em todo o mundo). noticiário catastrófico (EUA derrotados, transferência da capital soviética para Leningrado, pedido do papa por orações franceses e britânicos em desespero) – em um ritmo crescente.
No Brasil, as notícias também eram de tragédias. Vários objetos caíam em todo o território nacional e havia ataques, no Aterro do Flamengo, no Rio, de terríveis máquinas vindas do espaço, contra os cariocas. Nessa batalha, o “jornalista” da Rádio Repórter também pareceu perecer, tossindo, sob uma nuvem de pó.
A ideia de fazer o programa surgiu quando um dos envolvidos leu uma reportagem sobre Orson Welles e a transmissão de 1938 nos EUA. Foi, segundo a pesquisa da Universidade Federal do Maranhão (UFMa), aprovada pelo então proprietário da Difusora, Magno Bacelar.Político da Arena, partido de apoio ao regime militar, ele era era secretário da Casa Civil do governo estadual, chegaria ao PDS e ao PDT anos depois. Morreu em setembro de 2021, aos 83 anos. O objetivo da transmissão era fazer algo de impacto, que mostrasse a força da emissora e chamasse anunciantes.
“O proprietário da estação (…) estava no Rio/GB (…)”, assinalou o CISA. “Sua família também foi vítima de pânico.”
Pouca coisa foi gravada com antecedência. Quase tudo foi ao vivo. A reação popular não era imprevisível. Além do caso dos EUA, encenações radiofônicas do livro de Wells tiveram antes os mesmos resultados em Portugal, Chile, Equador. No Brasil, uma apresentação na Rádio Guaíba, em Porto Alegre, em 1957, foi exceção: não alarmou os gaúchos. Neste caso, porém, a produção era explicitamente de radioteatro.
No caso maranhense, diante da onda de protestos e ameaças, além das cenas de desespero nas ruas, o assistente de produção Fernando Melo dirigiu-se aos ouvintes no fim da transmissão. “Aqui estamos para assegurar que ‘A Guerra dos Mundos’ não foi mais do que um divertimento de fim de semana”, afirmou. “A única maneira que a Difusora encontrou para mostrar a todos o valor que o rádio continua a ter no mundo moderno.” Ele admitia que algumas pessoas podiam ter tido “um pequeno susto” e alguns amigos podiam ter ficado “irritados”. “Desta forma, nós fizemos o que nos competia. Aniquilamos o mundo e destruímos a nossa Difusora.”
O discurso tinha pontos em comum com a fala de Welles no fim da sua versão do programa em 1938. Ele disse que sua transmissão não fora mais que uma “distração de feriado”, a “versão para rádio própria do Mercury Theater de vestir-se com lençóis e pular de um arbusto dizendo “Boo”. Encerrou com um: “É Halloween”.
O Estado de S.Paulo/montedo.com

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