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Oficial egresso da AMAN é joia rara, ainda que necessite ser lapidado no dia a dia. Traz novo ânimo e inspiração aos mais jovens

Otávio Santana do Rêgo Barros*
Ao concluir a Academia das Agulhas Negras (AMAN), fui servir no 16º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Bayeux-PB. Uma unidade querida, principalmente para os aratacas (nordestinos no jargão militar).
Após a apresentação formal ao Comandante, o sisudo, mas boa praça Coronel Marden, soube que seria responsável pelo 2º Pelotão do 2º Esquadrão Mecanizado.
Fui recebido com pompa e circunstância na subunidade. Afinal, oficial egresso da AMAN é joia rara, ainda que necessite ser lapidado no dia a dia. Traz novo ânimo, inspiração aos mais jovens, oxigênio aos mais antigos.
O aspirante (primeiro posto de oficial) se acha um deus. Sabe tudo, pode tudo, quer tudo. É a fase de sonhos, que vão aos poucos se acomodando com a realidade. Queria pronto assumir o pelotão, colocar os soldados em forma, dar ordem unida, puxar a corrida, ensinar a atirar etc.
Antes, a atividade de administração prevaleceria no processo de adaptação. Precisava receber a carga do pelotão. Quantos cintos, pistolas, fuzis, viaturas e uma lista enorme de equipamentos tinham na reserva e na garagem, se estavam em bom estado e se conferiam os números com as fichas da Fiscalização Administrativa.
Nesse momento, conheci o subtenente Bezerra, paraibano cabra da peste. Falante, educado, organizado, cumprimentou-me com uma continência escolar – gesto, atitude, duração –, chamou-me de senhor com genuíno respeito, embora eu tivesse 21 anos de idade e ele quase 50.
Entregou-me a documentação, mostrou-me o fluxograma para conferência de carga e disse-me:
– Tenente, não se preocupe, antes de o senhor chegar, eu conferi seu pelotão. Ele está sem maiores problemas, mas verifique com diligência e não se avexe por buscar ajuda junto a este velho soldado.
– Permita-me um conselho, tenente, tenha sempre, ao alcance da mão, a resposta às mais importantes perguntas no quartel: “Onde está a chave?” e “Quem é o responsável?”.
E assim foi. Conta, confere, datilografa a relação carga, participa aos agentes administrativos a transferência da carga. Bom, agora começa minha missão.
Preparava os planos de aula com esmero e ministrava as instruções com satisfação. Os sargentos subordinados me ajudavam e partilhávamos das mesmas ideias, tínhamos quase a mesma idade e mesma linha de formação.
Éramos “indestrutíveis”. Se a corrida prevista era de 3.000 metros, corríamos 5.000 metros. A soldadesca terminava “aos tapas”, mas feliz pela superação diária.
Um dia, um recruta, após o treinamento físico, passou mal. Recém tinha incorporado. Levei-o à enfermaria, e o médico constatou sopro no coração. Poderia ter morrido naquela atividade. Graças a Deus, nada aconteceu.
Após esse episódio, o subtenente Bezerra foi ao meu pelotão.
– Tenente, não macule sua carreira por atos impensados, naturais em sua idade, mas que a profissão lhe cobrará caro no futuro. Escute mais que fale, aprenda mais que ensine, obedeça mais que ordene.
– Liderar é uma construção, tenente. Pressupõe dividir decisões, comandar com alguém. Avocar as deficiências dos subordinados, compartilhar a vitória entre todos, e a derrota, sofrer apenas como sua. E, a mais importante, ter por companheira a serenidade em todos os momentos.
Nunca esqueci o subtenente Bezerra, seus preciosos ensinamentos, sua humildade ornada de quietude, sua coragem moral por mostrar-me os erros. Perdi o contato com esse nobre amigo. Onde estiver, receba meu reconhecimento pelo papel de agente inspirador.
Falta-nos, ao Brasil atual, a figura de um subtenente Bezerra. E mais, a humildade para ouvi-lo pacientemente.
Diria o Bezerra:
– Tenente, não há pelotão que cumpra a missão se falta liderança e exemplo do chefe.
Não há mesmo.
Paz e bem!
*General de Divisão R1
METRÓPOLES/montedo.com

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