Escolha uma Página

Paciente de 33 anos não tinha comorbidades antes de travar uma das mais longas batalhas contra a doença no país. Durante a internação, foi submetido a sete cirurgias, hemodiálise e tratamento com ECMO

Amanda Scatolini
RIO — Aos 33 anos, Gabriel Lemos de Souza se tornou um dos brasileiros recuperados de Covid-19 com o maior tempo de internação pela doença. O militar da Marinha passou 130 dias na UTI do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, de onde saiu há menos de um mês. A média de hospitalização em casos graves, para se ter uma ideia, é de 28 dias.
Com a fala ainda vagarosa, mas firme e segura, Gabriel já anda sem auxílio e contou ao GLOBO a dura batalha travada, que incluiu o medo de não conhecer o filho – Ana Valéria, sua mulher, estava grávida de dois meses quando ele foi internado.
Gabriel contraiu a Covid no início de março. Os sintomas brandos, de tosse seca e insistente, evoluíram rapidamente para um estágio considerado gravíssimo pela equipe hospitalar de Sorocaba (SP), onde foi internado inicialmente.
Com a complicação do quadro, o militar foi transferido para a unidade da capital após duas semanas, já intubado e com baixos níveis de oxigenação do sangue. Só a ECMO, espécie de pulmão artificial, o mesmo utilizado no tratamento do ator Paulo Gustavo, poderia salvá-lo naquele momento.
A equipe médica do hospital de São Paulo foi então acionada e já surgia ali um dos primeiros desafios de Gabriel: ele corria sério risco de morrer no transporte. O desafio foi encarado e ele foi transferido em um avião equipado com UTI.
— A decisão foi um dos momentos mais críticos e arriscados. Sei que nessa hora eu bati na porta do céu e Deus me deu uma nova chance — diz Gabriel.
A terapia com ECMO é utilizada quando a ventilação mecânica já não é mais suficiente para proporcionar a oxigenação adequada ao paciente. Foram mais de 30 dias nesse tratamento, completamente sedado e com músculos paralisados.
— Queria que todo mundo tivesse a chance e o acesso que tive à boa medicina. O tratamento moderno e adequado e uma equipe dedicada foram fundamentais para minha vida ser salva.
A médica Ludhmila Hajjar, responsável pelo tratamento, considera o caso um dos maiores desafios que enfrentou na pandemia.
— Era um jovem sem nenhuma comorbidade que chegava com chance de morrer acima de 90%. O final feliz nos ensinou ainda mais a ter esperança e a acreditar na ciência — comemora.
Ao longo da internação, Gabriel teve falência dos pulmões, do fígado, do coração e dos rins. Passou por sete intervenções cirúrgicas por causa das complicações da infecção e das consequências do longo período de internação. Passou por hemodiálise, teve escaras, sangramentos no intestino e na cabeça. Operou a vesícula. Quando foi acordado após passar cerca de dois meses sedado, relata que a sensação foi de estranheza e de confusão mental.
— Reaprendi a comer, a andar, a falar e a raciocinar. Fiquei confuso demais, não sabia nem que eu estava em São Paulo. Alucinei, sonhei que estava pescando em um rancho. Só me situei no último mês e meio de internação. Aí vi minha esposa quase nas últimas semanas de gestação. A primeira parte da cura é querer melhorar — lembra o militar.
Ana Valeria o acompanhou durante toda a internação, e por inúmeras vezes, a equipe médica se deparou com a seguinte cena: ela sentada, ao lado de Gabriel sedado e submetido à ECMO, segurando sua mão e rezando.
— Estou bem, saí vitorioso. Consegui vencer uma doença traiçoeira e perigosa. Jamais imaginaria que ela fosse me pegar dessa forma — afirma Gabriel.
O Globo/montedo.com

Skip to content