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West Point se vê mergulhada em crise após calouros desrespeitarem código de ética da instituição em teste de cálculo aplicado a distância

Ed Shanahan, do New York Times
WASHINGTON – A Academia Militar dos EUA em West Point está enfrentando seu maior escândalo acadêmico em quase cinco décadas, depois que mais de 70 cadetes foram acusados de colar em uma prova de cálculo no final do primeiro semestre, disseram autoridades.
Cinquenta e nove cadetes admitiram ter trapaceado no teste, que todos os acusados fizeram remotamente, e não nas dependências da academia por causa da pandemia de coronavírus, disseram autoridades de West Point. O escândalo de trapaça foi relatado pela primeira vez pelo jornal USA Today.
Seis casos foram arquivados — dois por falta de provas; quatro após a renúncia dos cadetes — e oito cadetes enfrentam audiências do código de honra que podem resultar em sua expulsão, disse o tenente-coronel Christopher Ophardt, diretor de relações públicas da academia. O superintendente da academia, o tenente-general Darryl Williams, terá a palavra final sobre a punição, disse Ophardt.
“O processo de honrarias está funcionando conforme o esperado e não houve exceções à política para nenhum desses casos”, disse Ophardt em um comunicado. “Os cadetes estão sendo responsabilizados por quebrar o código.”
O deputado Jackie Speier, democrata da Califórnia que preside a Subcomissão de Pessoal Militar das Forças Armadas da Câmara, disse em um comunicado que as revelações eram “profundamente preocupantes”.
Speier também pediu aos funcionários da academia que compartilhassem mais detalhes sobre o que aconteceu e sobre seus planos “para garantir que esses cadetes sejam dignos do prestígio e da honra concedidos aos escolhidos para servir na academia e destinados a liderar nossos militares e nosso país”.
Todos, exceto um, dos 73 cadetes acusados de trapacear na prova eram cadetes do primeiro ano, disse Ophardt. O outro era um cadete do segundo ano, disse ele. Os acusados não estavam concentrados em um time esportivo ou em algum grupo, acrescentou.
A trapaça veio à tona logo após a prova ser aplicada em maio, quando os instrutores que avaliavam identificaram irregularidades no trabalho que os cadetes entregaram, disse Ophardt, que atribuiu o mau comportamento ao fato de os cadetes não terem feito o teste pessoalmente.
Uma investigação foi aberta e continuou depois que os cadetes retornaram à academia em junho. Os acusados de trapaça foram confrontados com as descobertas dos investigadores na volta às aulas, disse ele.
A maioria daqueles que reconheceram a trapaça, uma violação do código de honra da academia, foram inscritos em um programa de reabilitação que as autoridades introduziram há vários anos para dar aos cadetes que infringem as regras e regulamentos de West Point uma segunda chance em vez de simplesmente dispensá-los, como era a prática no passado.
Os outros quatro trapaceiros que admitiram ainda estão sendo considerados para o programa, disse Ophardt.
Conforme descrito por Ophardt, o regime de reabilitação, conhecido como Programa de Admissão Intencional, é uma espécie de campo de treinamento do código de honra, no qual os cadetes convivem com mentores que, entre outras coisas, os dão lições de ética e exigem que escrevam sobre suas experiências. Os cadetes que concluem o programa permanecem em liberdade condicional pelo restante de seu tempo em West Point, disse ele.
O código de honra da academia diz que “um cadete não mentirá, trapaceará, roubará ou tolerará aqueles que o fizerem”. Sua intenção, segundo o site da academia, é “promover um compromisso com a excelência moral e ética e uma visão da ética profissional militar mais abrangente.”
O último grande escândalo de trapaça em West Point foi em 1976, quando mais de 150 veteranos foram expulsos ou pediram para desligamento após colar em um exame final de engenharia elétrica, disse Ophardt. A falta de tecnologia avançada na época significava que um esquema tão difundido exigia mais planejamento e um papel mais ativo por parte dos líderes, acrescentou.
Noventa e dois dos envolvidos no escândalo foram posteriormente readmitidos como cadetes e autorizados a se formar depois de aceitar uma anistia do Pentágono que exigia que completassem um ano de “serviço útil” fora da academia.
O escândalo de 1976 levou a uma série de reformas destinadas a “encontrar remédios” para as “causas subjacentes” da trapaça, de acordo com o tenente-general Andrew Goodpaster, o superintendente na época. As mudanças incluíram uma reestruturação de todo o programa acadêmico de West Point, grandes mudanças no treinamento militar e uma reformulação do sistema de honra dos cadetes.
— Algo como um escândalo de cola não acontece por acidente — disse Goodpaster na época.
Tim Bakken, professor de direito de West Point e autor de “O custo da lealdade: desonestidade, húbris e fracasso nas Forças Armadas dos EUA”, chamou o escândalo de uma “crise” com potencial para causar danos muito maiores do que as infrações de várias dezenas de cadetes acusado de agir de forma antiética.
Como a academia é o campo de treinamento dos líderes do Exército, disse ele, deixar de lidar com um escândalo de trapaça de forma agressiva e transparente — e de encorajar uma cultura de honestidade — poderia contaminar o pensamento dos generais e sua abordagem para informar o público.
— Os Estados Unidos não tiveram sucesso nas últimas quatro guerras — disse Bakken. — O fracasso dos militares em nos dizer a verdade é grande parte do motivo.
As outras academias de serviço do país também tiveram escândalos de cola. Em 2007, por exemplo, 18 cadetes deixaram a Academia da Força Aérea após serem acusados de trapacear em um teste.
Em 1994, cerca de 125 aspirantes a marinheiro estiveram envolvidos em uma investigação na Academia Naval em um esquema que envolvia respostas a um exame de engenharia.
O Globo/montedo.com

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