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Lixo, entulho e até peças de roupas usadas ocupam ruínas que, antes, abrigavam integrantes das instituições públicas. Bens estão sendo transferidos a empresas privadas.

Theyse Viana, G1 CE
Condomínios que abrigavam militares do Exército e da Força Aérea Brasileira (FAB) em Fortaleza foram abandonados pelas instituições após desocupação e, hoje, servem de depósitos de lixo e entulho e de esconderijos para prática de crimes. Parte dos bens foi alienada para empresas privadas, segundo a FAB, mas outra segue sem destino certo.
As casas se assemelham a ‘vilas fantasmas’ em pleno movimento da grande cidade. São dezenas de construções, atualmente ruínas, em pelo menos três importantes bairros de Fortaleza: Cidade dos Funcionários, Praia de Iracema e Aeroporto.
O conjunto de quatro casas localizado na rua Doutor José Furtado, na Cidade dos Funcionários, ainda estampa em uma placa, no portão, a mensagem do antigo dono: “Exército Brasileiro – Área Militar – Proibido Entrada”. Mas o local não tem mais portas, janelas, telhado nem paredes. O mato abundante é o único habitante das ruínas em que se transformaram os bens públicos.
O G1 questionou o Exército Brasileiro sobre quando o condomínio deixou de ser utilizado pelos agentes, o que não foi revelado pela instituição. Em nota, o Comando da 10ª Região Militar de Fortaleza informou apenas que a estrutura “não pertence mais à União desde junho de 2019”, porque foi “transferida após contrato de permuta” a uma construtora da cidade. Contatada, a empresa confirmou a transação, sem revelar valores, e afirmou estar “estudando o melhor projeto” a ser implantado.
Quanto à insegurança no local, o Exército Brasileiro garantiu que antes e durante o processo burocrático “realizava rondas diariamente com o objetivo de controle patrimonial”.

Indefinição
Ao contrário destes, que já têm novos donos, a situação de parte dos imóveis do Comando da Aeronáutica (Comaer) segue sem definição. Na avenida Borges de Melo, no Bairro Aeroporto, as casas se estendem por pelo menos seis quarteirões, dezenas delas sem uso, com instalações elétricas, hidráulicas, portas, janelas e grades saqueadas.
A assessoria de comunicação da FAB afirma que “o processo relativo a esses imóveis encontra-se em andamento”, e atribui o status de abandono à morosidade dos trâmites públicos. Apesar disso, o órgão garantiu que “realiza rondas no local, para mitigar eventuais problemas de invasões e depredações”.

Antigos condomínios militares em Fortaleza agora servem de depósito de lixo e entulho e de esconderijo para prática de crimes — Foto: Fabiane de Paula / Sistema Verdes Mares

Já na Praia de Iracema, no quadrilátero formado pelas vias Historiador Raimundo Girão, 23 de outubro, Tigipió e Historiador Guarino Alves, os condomínios militares também foram invadidos pelo vazio – e pela criminalidade, como reclama o pescador Francisco Daniel Holanda, morador do entorno há 48 anos, desde que nasceu. O G1 chegou a flagrar um homem retirando canos e fios das casas.
“Já teve até tiroteio aí dentro, confusão de bandido entre eles mesmos e com a polícia. O povo rouba e vai aí pra dentro. Mas agora vão fazer um prédio, né?”, questiona. Conforme a FAB, os imóveis “foram objeto de alienação, via processo licitatório, na modalidade Permuta por Obras a Construir”, de modo que uma empresa privada venceu a licitação para construir “dois blocos de Próprios Nacionais Residenciais para graduados em Anápolis, Goiás”.
A licitação foi aberta em agosto deste ano. Como pagamento, a construtora receberá as casas militares situadas na capital cearense. O nome da empresa vencedora da licitação e os valores envolvidos na transação não foram informados pela Força Aérea. A desocupação das residências, que resultou no abandono, se deu por “uma reestruturação da instituição, que gerou uma movimentação dos militares para outras localidades, de modo que Fortaleza deixou de ter necessidade de tantos imóveis”.
Um julgamento de concorrência publicado pelo Diário Oficial da União (DOU) em maio do ano passado, referente a outra licitação, mostrava que duas construtoras estavam “classificadas” para construir imóveis militares não em Anápolis, mas em Parnamirim, cidade potiguar, também em troca de imóveis da Comaer. As propostas chegavam à ordem de R$ 43 milhões. O G1 também não foi informado sobre os destinos dados aos terrenos.
G1/montedo.com

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