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Antonio Cruz/Agência Brasil

Sergio Etchegoyen diz que não entendeu o que levou à demissão do general Santos Cruz

Wellington Ramalhoso Do UOL, em São Paulo

Ex-ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional, cargo que ocupou durante a gestão Michel Temer (MDB), o general da reserva Sergio Etchegoyen elogia a participação dos militares no governo Jair Bolsonaro (PSL), mas diz que o Exército não deve ampliar sua presença na administração. “A instituição [Exército] não vai se engajar mais [no governo] do que já está”. Etchegoyen afirma que os militares concordam mais do que discordam do governo Bolsonaro e que é prerrogativa do presidente demitir subordinados, incluindo generais. No entanto, diz ainda não ter entendido o que aconteceu com o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, afastado da Secretaria de Governo .

Antes da posse de Bolsonaro, Etchegoyen recusou um convite para participar do governo. “Ter participado num determinado momento [do governo Temer] foi uma imposição das circunstâncias. Não significava um projeto pessoal. Participei porque achava — não só eu, mas o meu comandante achava — que aquilo era importante. As circunstâncias mudaram, e eu volto para o que planejei sempre, que é tocar minha vida”.

Para o general da reserva, que foi chefe do Estado-Maior do Exército entre 2015 e 16, os Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) estão desalinhados e o país precisa de um pacto político para resolver sua crise atual. Etchegoyen falou por telefone com a reportagem do UOL durante rápida passagem por São Paulo nesta semana. Confira os principais trechos da entrevista.

UOL – Nos últimos dias, foram anunciadas as demissões de três generais do governo. O general Carlos Alberto dos Santos Cruz foi tirado da Secretaria de Governo, o general Franklimberg Freitas foi afastado da presidência da Funai e o general Juarez de Paula Cunha saiu da presidência dos Correios. O sr. considera justas as demissões?

Sergio Etchegoyen – Franklinberg provavelmente foi bombardeado pelas mesmas razões e mesma artilharia que o bombardeou na primeira vez que ele passou lá na Funai [O general também ocupou o cargo no governo Michel Temer. Nas duas vezes, caiu após pressões de ruralistas]. O Juarez, pelo que entendi, foi uma divergência de visão quanto a privatizar ou não os Correios. Não se ajustou a uma política, é normal. E o Santos Cruz ainda estou para entender o que aconteceu. Honestamente, como não estou lá, não sei o que aconteceu. Mas é uma prerrogativa do presidente. Ele nomeia e tira.

O general Santos Cruz tinha status de ministro e ocupava um cargo importante na articulação política e na comunicação. A saída dele muda o rumo do governo?

Não, acho que não é a saída de um ministro que muda o rumo do governo. O rumo do governo quem dá é o presidente, quem dá é a política. O Santos Cruz é uma pessoa honrada, um homem sério. Seu substituto também é. Não acho que isso vai definir uma nova direção, não. Na grande maioria dos casos, os militares que estão no governo são da reserva. Mas o general Luiz Carlos Ramos, que substitui Santos Cruz, é da ativa.

Qual é o significado disto para o governo e para as Forças Armadas?

A ida do general Ramos para lá, até onde eu sei, foi uma escolha do presidente. O presidente não consultou: “olha, eu quero um, me deem um nome”. Então, o significado é diferente do que se a força tivesse indicado um nome para ir para lá. São duas situações distintas. Não tenho informação mais precisa. Mas se foi assim, e eu entendi que foi assim, o escolhido foi o Ramos, e não general Ramos.

Qual a sua avaliação sobre a participação dos militares no governo nestes primeiros seis meses?

Estão dando uma demonstração de competência, de seriedade, mas principalmente de honestidade, de probidade, que é o que se esperava, é o que se queria, né? Foi isso que definiu a última eleição.

Os militares estão satisfeitos com o andamento e o desempenho do governo?

É muito difícil falar pelos militares. O que posso dizer, o que tenho ouvido é que, como todo governo, há concordâncias, há divergências. Mais concordâncias do que divergências. Acho que a posição, por exemplo, do comandante do Exército [general Edson Leal Pujol] está muito correta. Ele está à margem, fazendo o que tem que fazer para essas circunstâncias. A instituição [Exército] não vai se engajar mais [no governo] do que já está.

Os militares têm exercido um papel importante na organização do governo, não?

Há militares em cargos importantes, e isso é intolerável para alguns segmentos. Os militares estão dando certo, isso é intolerável para alguns segmentos. E os militares têm demonstrado ser a voz da serenidade, do bom senso, e isso também é intolerável para alguns segmentos. Nós tivemos um fracasso da política. Não digo isso com nenhuma alegria. Não é o que a gente queria, não é o que se projetou para a democracia que todos nós queremos.

Se tu pensares 40 anos para trás, quando foram revogados todos os atos de exceção [da ditadura militar] em 1979, vivemos 40 anos em liberdade, para o exercício de todas as tendências políticas, de todos os espectros ideológicos. E chegamos onde, lamentavelmente?

Muito mais do que ficar discutindo se tem militar, sem tem civil, temos que discutir o que fizemos com 40 anos de liberdade absoluta. O que fizemos com 40 anos exercendo a democracia como queremos? Onde chegamos? O que isso produziu? Trouxe prestígio para a classe política? Trouxe credibilidade? Nossa democracia avançou? Isso é muito mais importante do que discutir que roupa veste fulano, beltrano, que formação tem esse ou aquele. Acha ruim que alguns retornem a cargos importantes por vias democráticas? Antes disso é preciso perguntar por que isso aconteceu, por que o outro segmento falhou. É lamentável que a gente tenha poderes tão desprestigiados. Além desse cenário que o sr. descreve, a economia do país tem problemas graves, como o alto desemprego.

O que é necessário fazer para a retomada do desenvolvimento e a pacificação do país?

Nunca é uma palavra forte, mas o Brasil nunca, na minha opinião, viveu um momento em que foi tão importante a gente sentar para discutir um pacto pelo país. Não é de governança, não. De governança já não adianta mais. Pacto de governança já tivemos diversos e não resolveram nada. Temos que encontrar nossa Moncloa [referência aos pactos de Moncloa feitos por partidos políticos na Espanha, em 1970, para tirar o país europeu da crise econômica depois do fim da ditadura franquista], quem é que vai conduzi-la, quais são as lideranças disponíveis para apostar no país, e não na próxima eleição.

” Nós temos visto um desfile de egos, declarações egocêntricas e de busca desesperada de protagonismo que não ajuda em nada o processo num país que precisa enfrentar os seus equívocos e corrigi-los e aproveitar os seus acertos e seguir em frente” General da reserva Sergio Etchegoyen

Enquanto não tivermos homens públicos com a grandeza de perceber isso, de entender que tomamos decisões que não nos levaram para melhores direções e soluções, nós não vamos resolver. É importante olharmos para trás e ver o que fizemos com esses 40 anos. Todos nós. E como queremos os próximos anos, como vamos deixar [o país] para as gerações que nos sucederam/

O governo Bolsonaro está buscando este pacto?

Não sei, não sei. Não tenho ideia. Isso [a necessidade de se buscar um pacto] é uma opinião minha. Acho que o Brasil precisa discutir o futuro. Se não, vamos sofrer mais ainda e por outros 40 anos. Não sei qual é a política do governo, estou muito afastado para saber. Espero que busque [o pacto], mas não sei dizer, não estou lá para ver. Não sei se tem espaço. As coisas são feitas um pouco histriônicas demais, um pouco barulhentas. O Congresso tem lá seus interesses. As coisas não estão alinhadas. Temos três poderes [Executivo, Legislativo e Judiciário] aparentemente desalinhados. São três poderes da República Federativa do Brasil. Têm que pensar o Brasil, não em si mesmos. Se estão desalinhados, não estão em busca disso [de um pacto], né?

Como o sr. avalia a situação do ministro Sergio Moro após a divulgação de diálogos do período em que era juiz e julgava os processos da operação Lava Jato?

Isso precisa ser analisado com tranquilidade. As coisas precisam ser entendidas, de onde surgiu, o momento em que surgiu. Tem muita água para passar em baixo dessa ponte antes de a gente chegar a uma conclusão definitiva. De qualquer forma, não acho que a divulgação negue os crimes que foram cometidos. Elas podem apresentar crimes novos. Isso é outra questão. Se valer disso para mudar um cenário é mais uma escolha que o país tem que fazer. E que pode nos largar na direção errada. Mas não sou jurista, tem diversas teses, não conheço com a profundidade que os juristas conhecem essas questões. Mas acho que está muito cedo e sabemos muito pouco. A opinião pública só sabe o que foi publicado e da maneira que foi publicado para ter uma ideia do significa tudo aquilo.

O que o sr. pensa sobre o decreto que amplia o acesso às armas no país?

O Estado não tem o direito de decidir o que devo fazer ou não. Isso não é problema do Estado. Acho ridículo a gente discutir se pode ou não ter arma enquanto muita gente quer liberar droga. Tenho armas por profissão. Não as uso, não ando armado, mas tenho. Isso é uma decisão pessoal minha, e essa decisão eu quero tomar. Se o direito à vida é inalienável, o direito de defender minha vida é igualmente inalienável. Isso é um direito que eu tenho. Não é o Estado que vai me dizer. O Estado não me dá segurança. Para vender uma arma para alguém tem critérios. Arma não altera consciência de ninguém como a droga altera. E estamos preocupados com o direito que alguém tenha de comprar uma arma? “Ah mas vai armar o país”. O país está armado, só que a arma está na mão do bandido. Para mim, é uma discussão bizantina, uma discussão fora de propósito. Se eu sou um bom cidadão, eu não posso ter uma arma?

UOL/montedo.com

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