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Ainda há um longo caminho a percorrer, sem dúvida, mas o fato é que a implantação do cargo de Adjunto de Comando no Exército já é uma realidade. Com duração de nove semanas, o primeiro curso começa em julho. A primeira fase (à distancia) é de seis semanas. As três semanas finais serão na EASA, a partir do final de agosto. Enquanto isso, o Exército acaba de criar normas de cerimonial para os ocupantes do cargo.
Possivelmente, boa parte dos leitores não tem tempo suficiente de vida e carreira para dimensionar o que isso significa. Vou tentar ajudá-los contando um pouco da história recente do Brasil, vista sob a ótica da minha vivência como militar.
‘Sentei praça’ em 1979, ainda no regime de exceção. Quinze anos após 64, eram muito latentes, entre oficiais e sargentos, as sequelas que ficaram a partir dos episódios que culminaram com a deposição de João Goulart. Naquele momento histórico, os militares  tiveram uma forte atuação política, tanto a cúpula militar como os praças. Ainda na esteira do episódio da Legalidade, ocorrido três anos antes, a atuação das associações de sargentos foi estimulada pelo governo populista de Jango. A gota d’água para a deflagração do movimento que derrubou o Presidente foi seu discurso aos sargentos no RJ, na véspera do 31 de Março. Instalados no poder, os generais logo determinaram a prisão de centenas de graduados, que foram julgados e condenados pela justiça militar. 
A partir desses episódios, iniciou-se o  movimento de afastamento compulsório dos militares da política, que transformou-se em dogma castrense após a redemocratização, em 1985. Indo de um extremo ao outro em duas décadas, os fardados abriram mão do poder político e sujeitaram-se bovinamente aos humores dos dirigentes de plantão. Num curto prazo, as consequências dessa opção se revelaram desastrosas para a família militar, vide a MP do Mal e a atual situação salarial das Forças Armadas.
Voltando a 1979: era um tempo em que o graduado tinha que pedir autorização para casar, poderia ver-se obrigado a pernoitar no quartel por determinação de um tenente imberbe, não podia assinar uma singela parte (documento interno para comunicações rotineiras), não podia dividir a mesma acomodação ou lugar com um oficial em ônibus, avião, navio ou trem, podia ser punido se deixasse de cumprimentar um oficial num evento social. Nesse contexto, seria absolutamente impensável a hipótese de um graduado atuando junto ao Comando, como representante das praças.
Sim! Eu sei que essa discriminação ainda é muito presente no Exército e não vai se extinguir tão cedo. Mas não há como negar que a visão da Força a respeito de seus graduados tem evoluído positivamente ao longo do tempo. A criação do cargo de Adjunto de Comando é o sinal mais evidente dessa tendência. Aí pode estar o embrião para a reestruturação da carreira dos praças nos moldes norte-americanos e com a extinção do QAO.
– Pára de sonhar Montedo! Isso nunca vai acontecer! Creio que vai, sim. Mas é coisa para uns vinte anos. Espero estar por aqui ainda para que vocês possam me cobrar.

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