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Minha história: Capitão que deixou Exército para entrar na luta armada lembra de atritos com Dilma
Capitão Darcy Rodrgues mostra DVD sobre 1964 em Bauru (SP); ele participou da resistência à ditadura
Capitão Darcy Rodrgues mostra DVD sobre 1964 em Bauru (SP); ele participou da resistência à ditadura(João Rosan – 29.ago.2013/Jornal da Cidade de Bauru)
DEPOIMENTO A…
CRISTINA CAMARGO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM BAURU

Assaltos, treinamento de guerrilha e a morte de um inocente são parte da vida de Darcy Rodrigues, 72. O capitão do Exército deixou a instituição em 1969 e entrou na luta armada. Lembra de “duras discussões” com Dilma Rousseff. Mais de 40 anos após matar um taxista durante um assalto no Rio, diz ainda sentir o “peso” do crime.

Eu morava em Três Corações (MG), sem perspectiva de trabalho. Fiz concurso para escola militar e passei. Pensava, com aquele idealismo juvenil, em contribuir para a formação de uma sociedade mais avançada.
Jânio Quadros [ex-presidente] renunciou e houve a tentativa de golpe contra a posse de João Goulart [em 1961]. Comecei a sentir a conspiração dentro do Exército. Em 1962, fui para um regimento em Quitaúna [SP]. O [Carlos] Lamarca era oficial e me procurou. Eu articulava os sargentos, e ele, os oficiais.
Depois do golpe, o Lamarca disse: tenho contato com [o guerrilheiro Carlos] Marighella. Falei: tenho com o MNR [origem da VPR, organização de luta armada]. Marcamos dia e hora para sair do quartel [com armas e munição]. Minha mulher, minha filha, a mulher do Lamarca e os filhos foram para Cuba.
Entrei na clandestinidade após me despedir da família. Fui com o Lamarca para um aparelho [esconderijo] em janeiro de 1969. Começaram as prisões, crises. A ideia era ir direto para a zona rural, mas começou a demorar.
Disse ao Onofre Pinto, líder da VPR: quero participar de ações na cidade. Fizemos uma ação num banco na rua Piratininga, em São Paulo, que foi um desastre. Saiu tiroteio, morreu um guarda, um caos. O cara veio atirar em mim, e o Lamarca fez o papel dele [ao matar o segurança].
Participei de todas as ações da VPR naquele período. Começou uma discussão com o Colina [outra organização da luta armada] para uma fusão com a VPR.
A Dilma era meu contato no Colina. Tivemos discussões duras. A ala militar queria formar um Exército popular, por meio de guerrilha. A Dilma queria fortalecer o trabalho urbano, incentivar uma greve geral, tentar uma situação política por meio da luta de massas. Hoje a história mostra que ela estava certa.
Dilma era e é uma pessoa dura. Cai na asneira de chamá-la de sargentona quando era ministra -disseram que ela não gostou. Quando ela veio a Bauru [na campanha de 2010], fui ao aeroporto encontrá-la. Ela colocou a mão no meu ombro e falou: você está velho, acabado. Eu disse: vim aqui só para pegar o telefone de seus cirurgiões plásticos e esteticistas, para ficar bonito igual a você.
No Rio, a organização fez um [assalto a] banco e foi um desastre. Tinha um motorista de táxi que era militar, pegou um policial e saiu perseguindo o carro da ação.
Vi que dois companheiros seriam presos. Foi traumatizante, tive que atirar. Morreu o taxista [Cidelino do Nascimento]. Isso pesa muito, mas não tive alternativa.
Teve o roubo do cofre do Adhemar de Barros [ex-governador de São Paulo]. Foi chamado de grande ação, mas não funcionou direito. Na hora o cofre saiu da prancha colocada para deslizar e caiu. Tivemos que pegar na unha. Foi uma alegria, aquele monte de dólares.
Fui preso em abril de 1970, no Vale do Ribeira. Fui torturado ali mesmo. Depois, três vezes ao dia. Trocado pelo embaixador alemão, fui para a Argélia e depois Cuba, onde fiquei 10 anos.
Fui professor e estudei economia em Havana. Dois dos meus filhos nasceram lá. Voltei ao Brasil em 1980, depois da anistia. Era como se tivesse saído no dia anterior. Isso aqui é um país maravilhoso.
Em Bauru, policiais me seguiam na rua. Uma vez saí de um escritório e vi um cara atrás de mim. Corri, parti para cima. Ele disse: só estou cumprindo ordens. Depois virou amigo.
Lembro de uma frase do Lamarca: morrer é fácil, difícil é carregar os fantasmas dos que se foram. (R. A.)
Folha de São Paulo, via blog Adeilton 9599/montedo.com
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