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Alta no número de mortes sinaliza mudança no conflito afegão
Sua guerra estava quase encerrada. Ou era isso que Marina Buckley imaginava quando seu filho, o cabo Gregory Buckley Jr., contou a ela que retornaria do sul do Afeganistão à sua base no Havaí com três meses de antecedência.
Mas em lugar disso Buckley se tornou o 1.990º militar norte-americano a morrer na guerra, em 10 de agosto, quando ele e dois outros fuzileiros navais foram mortos a tiros em sua base na província de Helmand por um homem que parece ter sido um integrante da unidade militar afegã que eles estavam treinando.
Uma semana depois, com a morte do especialista James Justice, do exército, em um hospital militar da Alemanha, as forças armadas norte-americanas registraram sua morte número 2.000 no conflito afegão iniciado há quase 11 anos, de acordo com análise do “New York Times” sobre dados do Departamento de Defesa. O cálculo do jornal inclui mortes não só no Afeganistão mas no Paquistão e outros países nos quais forças norte-americanas estão operando como parte do mesmo conflito.
Quase nove anos se passaram para que os Estados Unidos registrassem sua milésima morte na guerra afegã. O segundo milhar foi completado apenas 27 meses mais tarde, o que prova a intensidade dos combates gerados pela decisão do presidente Barack Obama de enviar um reforço de 33 mil soldados ao Afeganistão em 2010.
Buckley, que havia acabado de completar 21 anos quando morreu, é um exemplo típico dos soldados que caíram em combate nesse período de intensificação, de mais maneiras que sua família poderia imaginar. De acordo com a análise do “New York Times”, três de cada quatro mortos eram brancos, 90% eram soldados de baixa patente, e 50% deles morreram nas províncias de Kandahar ou Helmand, no sul do Afeganistão, dominado pelo Taleban. A idade média dos soldados mortos era de 26 anos.
Os fuzileiros navais como Buckley respondem por número desproporcional das baixas fatais. Ainda que o exército tenha sofrido mais mortes na guerra, os fuzileiros navais, com um efetivo mais baixo, apresentam incidência de baixas superior. No auge do conflito, em 2010, 0,2% dos fuzileiros navais presentes no Afeganistão morreram em combate, um índice duas vezes superior ao do exército. Das cinco unidades de reforço mais atingidas durante esse período, três eram unidades dos fuzileiros navais.
O maior número de baixas coube ao 3º Batalhão do 5º Regimento de Fuzileiros Navais, cuja base é Camp Pendleton, na Califórnia. A unidades sofreu 25 baixas fatais e teve mais de 180 soldados feridos, muitos dos quais passaram por múltiplas amputações, durante um sangrento período de serviço de sete meses na província de Helmand, iniciado no final de 2010.
A análise também demonstra que as baixas do exército durante o período de combates intensificados se concentraram pesadamente em duas bases cujas tropas costumam ser utilizadas com frequência em serviço fora do país: Fort Campbell, no Kentucky, o quartel da 101ª Divisão Aeroterrestre, a unidade que mais registrou mortes no exército durante o período, e Fort Drum, em Nova York, o quartel da 10ª Divisão de Montanha.
O verão continua a ser a temporada de combate mais intensa, e o período de maior número de baixas para os Estados Unidos foi de julho a setembro de 2010, com pelo menos 143 soldados nortes. E como vem sendo o caso pelo menos desde 2008, dispositivos explosivos improvisados (IEDs) foram a principal causa de baixas ou ferimentos, seguidos por fogo de armas portáteis, de acordo com a análise.
Mas este ano emergiu uma nova ameaça: ataques por afegãos usando o uniforme das forças de segurança de seu país. Nas duas últimas semanas, pelo menos nove norte-americanos foram mortos em ataques como esses, e até agora este ano pelo menos 39 soldados não afegãos, a maioria dos quais norte-americanos, foram mortos por homens que vestiam o uniforme das forças afegãs de segurança – o maior número registrado desde o início da guerra.
Esses ataques por aliados reforçaram a preocupação quanto à capacidade da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) para transferir a responsabilidade pela segurança do país às forças afegãs até 2014, o prazo estipulado por Obama para a retirada das forças norte-americanas remanescentes; Para as famílias, as mortes despertam questões difíceis sobre os esforços do Pentágono para garantir a proteção das tropas norte-americanas contra seus aliados.
Ainda que a guerra do Afeganistão agora seja considerada a mais longa das guerras dos Estados Unidos, com 128 meses, o número de mortos é menos de metade do registrado na guerra do Iraque, que viu 4.480 vítimas fatais em oito anos. No ano passado, mais soldados ativos e de reserva se suicidaram, 278, do que morreram em combate no Afeganistão, 247.
Nada disso conforta as famílias dos mortos. Para os Buckley, de Oceanside, Nova York, a morte do filho tão perto do final de seu período de combate e tão perto do fim de uma longa guerra, e ainda mais por ele ter sido vítima de um suposto aliado, causou sofrimento intenso.
Marina Buckley estava falando sobre as coisas que seu filho amava – basquete, garotas, filmes, praia – e sua voz estava embargada de amargura.
“Nossas forças não deveriam estar lá”, disse. “A guerra já deveria ter acabado. Já basta. Chega”.
Uma unidade sob pesado ataque
O 3º Batalhão do 5º Regimento de Fuzileiros Navais, de Camp Pendleton, Califórnia, exemplifica bem as forças enviadas ao Afeganistão como parte do reforço determinado por Obama. Em 2010, o batalhão foi transferido a Sangin, o coração da produção de ópio afegã, para enfrentar um inimigo formidável e muito experiente no uso de IEDs, sofrendo a morte de 25 fuzileiros em um período de sete meses, o segundo maior número de baixas entre as unidades militares norte-americanas envolvidas na guerra, de acordo com a análise do “New York Times”
Mark Moyar, analista independente de segurança nacional que estudou as ações do batalhão, disse que os britânicos, que precederam os fuzileiros navais em Sangin, parte da província de Helmand, se concentravam em desenvolvimento econômico e em promover o contato com a população, para solapar a insurgência. Mas o Taleban operava com quase completa impunidade em certas porções do distrito, afirma.
Os fuzileiros navais adotaram abordagem diferente, penetrando as aldeias dominadas pelo Taleban. Os combates foram intensos, e civis muitas vezes se viram apanhados entre os inimigos; as baixas não demoraram a se acumular.
Em 8 de outubro, apenas duas semanas depois da chegada do batalhão, a unidade sofreu sua primeira baixa fatal, o cabo John Sparks. Cinco dias mais tarde, quatro fuzileiros navais do batalhão morreram quando o caminhão blindado que usavam foi destruído por uma poderosa bomba. Outros três morreram no dia seguinte, quando entraram em um campo minado durante uma patrulha a pé.
A sucessão de mortes rápidas fez com que Washington instruísse o batalhão a reduzir a intensidade de suas operações. Mas a liderança dos fuzileiros navais – a começar pelo comandante da unidade, o tenente-coronel Jason Morris – convenceu o secretário da Defesa, Robert Gates, a manter as operações.
“Todo mundo, eu incluído, ficou chocado por termos perdido tantos homens tão rápido”, diz Morris. “Mas, honestamente, eu e a maioria dos meus comandados preferíamos voltar para casa mortos a permitir a vitória do Taleban”.
Deanna Giles, mãe de um sargento do batalhão, recorda bem aqueles dias. Em meio aos constantes relatórios de baixas, ela começou a prestar atenção à presença de carros desconhecidos no seu bairro, em Kankakee, Illinois, temendo ser a próxima parente a receber notícias horríveis.
Ansiosa por informação e consolo, ela começou a percorrer as salas de chat da Internet e formou elos fortes com outras famílias do batalhão, pessoas a quem nunca havia encontrado em pessoa.
“Você começa a se preocupar com as pessoas de uma maneira que teria sido impossível antes da Internet”, diz Giles.
Seu filho, o sargento Caleb Giles, voltou incólume. Mas o cabo Victor Dew, filho de Patty Schumacher, morreu em combate.
Schumacher havia implorado ao filho que adiasse seu alistamento até depois do final da guerra. Quando ele recusou, ela pediu que ele solicitasse um posto em uma unidade de segurança presidencial. Ele uma vez mais respondeu que não, afirmando que pretendia combater na infantaria e participar da guerra.
“Que desânimo aquilo me causou”, ela relembra. “Mas também fiquei orgulhosa dele por seguir aquilo que acreditava. Como mãe, você precisa guardar suas emoções, respirar fundo e esperar que tudo corra bem”.
No final de agosto de 2010, Drew pediu a namorada em casamento, e um mês depois foi enviado ao Afeganistão. Poucas semanas depois de chegar a Helmand, ele e três outros fuzileiros navais foram mortos por uma poderosa explosão de IED. Com 20 anos de idade, ele se tornou o 1.259º norte-americano a morrer na guerra.
A namorada colocou em seu caixão uma foto dela, usando seu vestido de noiva.
Schumacher tem uma página de Facebook para manter vivas as lembranças do filho, e ocasionalmente faz um brinde a ele no jantar. Ainda chora, também, ainda que seja difícil prever quando chegam as lágrimas, que podem ser causadas por imagens e sons passageiros que trazem à sua memória um sorriso, uma canção, uma piada do filho.
“Quando é que você melhora? Você não melhora”, ela diz. “Só aprende a sofrer melhor. Sempre vai haver alguma coisa que deflagra o sofrimento. E você volta à montanha russa emocional”.
Ataques por afegãos
O sargento Scott Dickinson voltaria para casa mais cedo. Deveria permanecer em Helmand até novembro de 2012, originalmente, mas o Pentágono havia acelerado o cronograma de retirada dos fuzileiros navais do Afeganistão, com o objetivo de tirar do país o contingente de reforço antes do final do ano, reduzindo a presença norte-americana a 70 mil soldados. Dickinson disse ao pai no começo do mês que estaria de volta ao Havaí dentro de uma ou duas semanas.
Pouco depois dessa conversa, John Dickinson, o pai do sargento, leu sobre um soldado que havia sido morto apenas uma semana antes do final de seu período de serviço. “E eu pensei que ele só estaria em segurança quando chegasse ao Havaí”, relembra Dickinson, arquiteto em San Diego.
Ele tinha razão. Dickinson, 29, um especialista em suprimentos que se apresentou como voluntário para ajudar a treinar as forças afegãs, morreu no mesmo ataque que custou a vida de Buckley, em 10 de agosto. Estavam entre os seis fuzileiros navais mortos naquele dia em dois ataques, aparentemente executados por integrantes das forças de segurança afegãs.
O Pentágono afirma que a maior parte desses ataques resulta de desavenças pessoais, e contesta as alegações do Taleban de que seu pessoal está profundamente infiltrado nas forças de segurança.
Mas os ataques também despertaram novas preocupações quanto à integridade das forças afegãs que a Otan espera sejam capazes de proteger todo o país quando suas tropas forem retiradas, em 2014.
Mais fundamentalmente, as mortes continuadas, em um período no qual as forças norte-americanas vêm conduzindo menos missões de combate, levaram militares e seus familiares a imaginar se a década de presença dos Estados Unidos no Afeganistão fez alguma diferença.
Morris, o antigo comandante do 3º Batalhão do 5º Regimento de Fuzileiros Navais, não têm muita dúvida de que sim. Depois de meses de ferozes combates, ele via mudanças claras em Sangin, quando partiu, no começo de 2011. E as mudanças se mantiveram, com os moradores participando de eleições e indo à escola com menos medo da intimidação do Taleban – ainda que a intimidação continue.
“Todos os fuzileiros navais de meu batalhão viam o impacto que tivemos”, ele diz. “Isso validou tudo aquilo pelo que se sacrificaram”.
A despeito da morte do filho, Dickinson concorda. Marina Buckley não está tão certa.
“Ele era um ser humano adorável, muito sensível”, diz ela sobre o filho. “Não sabia esconder seus sentimentos. Bonito, bonito, bonito”.
Buckley queria se alistar nos fuzileiros navais desde o 11 de setembro, apesar das muitas tentativas maternas de dissuadi-lo. Na adolescência, ele tinha uma flâmula dos fuzileiros navais em seu quarto, e os esforços da família para que se matriculasse em uma universidade – ele foi aceito pela Adelphi, quando estava no último ano do colegial – não fizeram efeito.
“Eu perguntava por que ele queria servir nos fuzileiros navais”, ela conta, e a resposta dele era sempre uma piada: “Dá pra arranjar muita mulher com aquele uniforme, ele dizia”.
Mas suas ambições eram sérias. Ele queria servir e depois se tornar policial no condado de Suffolk. E apreciava o senso de irmandade dos fuzileiros navais, assim como sua primeira temporada de serviço, no Havaí. Mas ao ser transferido para o Afeganistão, as coisas mudaram. A solidão, o calor e as rações pré-preparadas logo começaram a pesar, diz Marina Buckley.
E ele jamais se sentiu seguro vivendo entre os afegãos, acrescentou.
“Se eles querem se matar entre eles, deveríamos deixar”, ela afirma sobre o povo afegão. “Mas estão matando pessoas que não deveriam morrer, que têm vidas, famílias, irmãos e irmãs aqui”.
Jornal Floripa/montedo.com
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