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Alistamento militar vira prova de sobrevivência

Em Campo Grande, fila começa até 12 horas antes do início do atendimento. Vencido pelo cansaço, um jovem dorme na árvore, Promotora ameaça processar prefeitura

Jovem tem até que dormir em árvore para se alistar | Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
MARCELLO VICTOR
Fome, frio, 12 horas de espera, e galho de árvore como cama. Poderia ser uma prova de sobrevivência, mas é mais uma fila para o alistamento militar. Três dias após O DIA denunciar que jovens dormem na calçada para conseguir senha na junta militar na Praça Seca, equipe constatou que a humilhação se repete em Campo Grande.
Lá, o primeiro da fila de ontem chegou ao local às 19h30 do dia anterior para conseguir uma das 120 senhas. Ministério Público do estado ameaça processar Prefeitura do Rio caso o serviço não melhore.
Rapazes se ‘escoram’ em mesa de jogo na Praça Telmo Gonçalves Maia 
Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
Às 6h, duas horas antes do início do atendimento, 200 jovens já se aglomeravam na porta da Subprefeitura da Zona Oeste para cumprir seu dever cívico. É lá que funciona a 13ª Delegacia da 2ª Circunscrição de Serviço Militar (CSM). O alistamento militar é obrigatório. Quem o ignora, fica impedido de prestar concurso público, se matricular em universidade e tirar passaporte, por exemplo.
Para evitar que todos durmam em fila, os adolescentes organizam lista e cada um procura abrigo onde dá. M., 17, se acomodou no galho de uma árvore. “Já sabia que tinha que chegar cedo, mas não esperava que fosse tão cansativo. Já estou aqui há cinco horas e espero que o posto abra logo, não aguento mais. Estou morrendo de sono” desabafou o estudante e ajudante de mecânico, às 5h de ontem. Ele chegara à meia-noite e foi o 77º na lista.
REVOLTA
“Aparecem 300 para se alistar e eles só podem atender 120. Tem que ter mais locais Aqui é perigoso. Imagina se passa um carro de miliciano dando tiro em cima de todo o mundo?”, teme W., 19 anos.
Com medo de deixar seu filho de 17 anos ao relento, a doméstica M., 48 anos, acompanhou-o na espera. Eles chegaram às 23h de ontem para conseguir colocar o nome de C. como o 18º a ser atendido. “A gente fica exposto a qualquer covardia. Não tem segurança nenhuma”, protestou ela. Era o segundo dia dos dois na fila da vergonha. Na quarta, voltaram para casa pois já havia 166 na frente.

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BIS DA HUMILHAÇÃO
Segunda-feira, O DIA estampou na capa o drama dos jovens na Praça Seca. A Prefeitura do Rio, responsável pelo serviço, informou que vai pedir ajuda às Forças Armadas para melhorar o atendimento. Reunião será marcada.
Com comércio à 2 km de distância, camelô fatura
Além da espera interminável, o comércio mais próximo da junta de Campo Grande distante 2 km. Quem já sabe do sufoco vai armado com biscoitos. Há quem fature com a precariedade. Adriano dos Santos, 34 anos, lucra R$ 125 todos os dias com a venda de 50 salgados e copos de suco por R$ 2,50.
“O grosso do pessoal chega mesmo por volta das 2h, mas, na noite anterior já tem gente aqui. E não tem tumulto. Eles mesmos se organizam e montam a lista pra quando começar o atendimento não ter problema e agilizar tudo”, contou Adriano.
Para a 2ª via, 15 horas de fila
Quem precisa de outros serviços da junta militar sofre igual. Para pegar o Certificado de Reservista ou a segunda cópia do documento são dadas apenas 30 senhas por dia, e só de segunda a quinta-feira. O jeito é madrugar.
Foi o que fez o pedreiro R., 45. Munido de cobertor, ele chegou ainda mais cedo que os jovens: às 17h de quarta-feira já estava na fila para ser atendido às 8h de ontem: “É a terceira vez que venho esta semana. Na segunda, cheguei às 6h e na terça, às 2h e não consegui” contou ele, que dormiu sob uma árvore.
Segundo uma pessoa que já foi algumas vezes à junta, há um clima de animosidade entre os militares e funcionários da prefeitura devido ao número reduzido de atendentes.
Ministério Público cobrará uma solução do Município
A maratona enfrentada pelos jovens no cumprimento de uma obrigação cívica causou perplexidade à promotora de Justiça da Infância e da Juventude da Capital Clisânger Ferreira Gonçalves Luzes. A promotora cobrará providências da Prefeitura.
“O poder público tem que criar estrutura adequada para atender esse adolescente para que ele não tenha que fica na rua, numa fila na madrugada. Faremos recomendações à prefeitura para que amplie e melhore o atendimento. Caso não tenhamos sucesso poderemos ter uma ação judicial”, disse.
Colaborou Pâmela Oliveira
O Dia OnLine/montedo.com
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