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Renovação da frota da FAB é marcada por pressões externas e interesses comerciais camuflando-se no discurso do interesse nacional.

Hugo Souza
A exemplo do Brasil, o Japão também está às voltas com a renovação da sua frota de aviões de combate. Como o Opinião e Notícia noticiou, no fim de setembro três empresas se apresentaram como candidatas a fornecedora de caças para a aeronáutica nipônica: as norte-americanas Lockheed Martin e Boeing, com o F-35 e o F-18 Super Hornet, respectivamente, e o consórcio da União Europeia responsável pelo avião Eurofighter Typhoon.
Além do F-18 Super Hornet, que concorre aqui e lá, os processos de compra de novos aviões de combate pelo Brasil e pelo Japão têm em comum as pressões externas dos potenciais vendedores e os interesses comerciais de grandes empresas camuflando-se no discurso do interesse nacional.
O ministério brasileiro da Defesa não se cansa de repetir que a compra de caças para a FAB não se trata apenas de uma simples aquisição de aeronaves. O negócio, ora suspenso em função da crise econômica internacional, precisa contemplar a transferência de tecnologia e a capacitação profissional dos brasileiros para o uso dos caças.
Mas, no caso da compra de supersônicos de combate para atualizar a FAB, há ainda outras nuances, não declaradas, mais – muito mais – políticas do que propriamente militares, porém não menos determinantes, a ponto de serem capazes de se sobrepor até à opinião de quem entende do riscado.
Entre essas nuances está a preferência fartamente declarada de um chefe de Estado, o então presidente Lula, pelo caça Rafale, da Dassault, opção desaconselhada em pareceres técnicos do exército brasileiro, mas incensada em nome de uma muito mal explicada “aliança estratégica” com a França.
Aliança franco-tupiniquim
Até agora a tal aliança franco-tupiniquim só foi estratégica de fato para as grandes multinacionais francesas de defesa, como a DCNS, que fechou um megacontrato com o governo do PT para a construção de 20 submarinos convencionais e cinco nucleares e participa da concorrência para a construção de cinco navios-patrulha, cinco fragatas e um navio de apoio logístico.
Em janeiro deste ano, logo após o governo brasileiro anunciar o reinício do processo de escolha dos novos aviões da FAB depois de Lula quase bater o martelo pelos Rafale franceses, o jornalista Jânio de Freitas escreveu exatamente sobre esta geopolítica da compra de caças em sua coluna na Folha de S. Paulo:
“A decisão de Dilma Rousseff põe em suspenso também [além da recusa ao ‘negócio forçado’], com a cautela diplomática de não o mencionar, a ‘aliança estratégica’ do Brasil com a França, tal como acertada por Lula e Nicolas Sarkozy. O que, por sua vez, levará a reconsiderações nos desdobramentos práticos da Estratégia Nacional de Defesa, o mirabolante plano armamentista de custo estimado em US$ 40 bilhões”.
E prossegue Jânio:
“Outro efeito do reinício da concorrência – não declarado, mas implícito na abertura a mais concorrentes – recai nas relações políticas com os Estados Unidos. A aceitação de mais concorrentes significa a possibilidade de que a Rússia volte a propor o seu caça Sukhoi”.
‘Curvatura de espinha’
Jânio se referia ao fato de que o caça russo Sukhoi chegou a ser apontado como um dos preferidos dos técnicos da aeronáutica na primeira seleção para renovar a frota da FAB, ainda durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Na época, entretanto, os EUA impuseram um veto à participação da Rússia na concorrência, veto que foi aceito por FHC e mantido por Lula, em postura que o colunista da Folha classificou como “curvatura de espinha do governo brasileiro”.
Os franceses voltaram à carga recentemente, durante a Assembleia Geral da ONU, quando Nicolas Sarkozy requisitou um encontro com Dilma Rousseff para cobrar a conclusão do negócio prometido por Lula. Segundo o Planalto, o presidente francês foi informado de que a renovação da frota da FAB só voltará à agenda brasileira em 2012.
O fato é que no Planalto e na caserna corre a notícia de que, após a visita de Barack Obama ao Brasil, em março, na qual os novos aviões da FAB foram pauta do encontro entre os dois chefes de Estado, Dilma estaria caída para fechar com a Boeing. A presidente estaria disposta a inserir a renovação da frota da FAB em seu esforço para melhorar as relações do Brasil com os EUA. Já o caça sueco Gripen seria o preferido do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.
E assim voarão nossos brigadeiros: em aviões escolhidos menos por critérios técnicos, mais ou menos por critérios econômicos e sobretudo por critérios políticos.
Mas isso não é uma exclusividade brasileira. No Japão de concorrência aberta para comprar novos aviões de guerra, o primeiro-ministro já disse aos EUA que a aliança mútua entre os dois países é “o maior bem do Japão”. O ministro japonês da Defesa garantiu que a disputa será justa, mas dificilmente Tóquio irá assinar o primeiro contrato de compra de caças com uma empresa não-americana em mais de 50 anos, mesmo com pareceres mostrando que o Eurofighter Typhoon é o mais indicado para uma força aérea que atua somente em auto-defesa.
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