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Paulo Ricardo da Rocha Paiva*
Ministério da Defesa atribui missão de guarda florestal ao Exército. Estaria este encargo comprometido com uma reengenharia da Força Terrestre ou se dá mais um passo no processo de gendarmerização que vem caracterizando a atual gestão da pasta? Ao que parece, ninguém se liga, nunca se corroborou tanto com os desígnios, a nós vaticinados pelo “irmão Caim do norte”, de fragilização permanente das Forças Armadas, de esmaecimento do seu orgulho marcial e do subemprego delas em operações de caráter policialesco. No Exército, por exemplo, a sobrecarga de missões atípicas nas diferentes armas vem despersonalizando, de forma subliminar, o “espírito de corpo” de seus profissionais, justo naquilo que os diferencia e do qual mais se orgulham em suas escolas de formação e de aperfeiçoamento. 
Ainda outro dia, o Exército Brasileiro comemorou a Festa Nacional da Artilharia, tiros de salva em profusão, e eu me perguntei: as unidades de apoio de fogo executam o tiro real quantas vezes durante o ano de instrução? O cidadão comum, aquele que só vê espetáculos de mentirinha em Brasília, disparos de lantejoulas, precisa saber: talvez menos da metade disponha de munição para o adestramento previsto na programação anual. Resultado: hoje, prosseguindo na senda de desvirtuamento da atividade fim das armas no Exército, artilheiros estão sendo escalados, inclusive, para missões típicas da Infantaria, haja vista o desgaste dos infantes em patrulhamentos “ad eternum” nas favelas do Rio de Janeiro.
Na Engenharia, então, só se pensa na construção de estradas, o que até se justifica pela garantia do emprego probo das verbas repassadas para o Ministério dos Transportes, uma pasta, já faz tempo, desgastada pelos desvios de recursos envolvendo cargos e comissões. Mas, e as suas tropas de combate tão em falta na Amazônia? Batalhões de Infantaria de selva carecem, em seus quadros de organização, de um pelotão de engenheiros, seja para destruições em combate, seja para abertura de picadas, construção de pequenas pontes e instalações em bases de combate. Necessidade tirânica que se faz presente a toda hora, em todos os locais e sob as mais variadas formas.
E quanto à Cavalaria, como caracterizar o seu subemprego? Todos se lembram: hoje seus meios encouraçados são manejados por tropas federais no desmantelamento de fortins do crime organizado em favelas cariocas. O próprio Bope, dotado com viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP), nos moldes da Guarda Nacional nos EUA, poderia fazê-lo Neste batalhão, uma companhia equipada com este material aperfeiçoaria a coordenação das operações, diminuiria os “caciques” e simplificaria sobremaneira o apoio logístico. Todavia, é lamentável, ainda compramos carros de combate na União Europeia e continuamos a remendar, com competência deve ser dito, as VBTPs veteranas do Vietnã, vendidas pelos EUA em 1972. Que tal encomendá-las à indústria nacional de modo a não engordar os cofres dos “mercadores da morte” encastelados no CS/ONU? Que ninguém duvide, um lote do Charrua”, de protótipo já testado pela Moto Peças S/A em São Paulo, desempenha muito melhor em suas destinações do que as geringonças esclerosadas vendidas pelo Tio Sam.
E a arma base, nobre Infantaria, “eterna majestade das linhas combatentes…”? Coitada, essa é do alfinete ao foguete! Como sempre, o maior efetivo se a coisa foge ao controle na garantia da lei e da ordem. Guerra ao narcotráfico, retomada/ocupação de zonas liberadas pelo crime organizado, é de pasmar, ainda se fazem com o já terminal fuzil automático leve, empunhado em 1965, quando sentei praça. Isto sem falar nos combates ao desmatamento de florestas, aos incêndios nas matas e na defesa civil em casos de calamidade pública. Instituições de maior credibilidade no país, sempre! Por que não?

*coronel de Infantaria e Estado-Maior

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