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Sargentos do Exército saíram em defesa da Constituição no RS
Muitos militares ficaram marcados e precisaram se exilar em 64
Exército entra na Legalidade com armas mais possantes
Foto: reprodução do documentário Legalidade / PDT

Lorena Paim

A tomada de posição por parte de sargentos e outros militares graduados do Exército influiu nos rumos do movimento da Legalidade. Nos quartéis gaúchos, muitos deles reagiram à orientação de seus superiores e deixaram claro que estavam do lado dos que defendiam a Constituição, ou seja, a favor da posse do vice João Goulart por ocasião da renúncia de Jânio Quadros. Os militares subalternos desafiaram, portanto, o veto dos ministros militares a Jango.
Dois desses militares participaram na noite de terça-feira (31) do seminário Os 50 Anos da Legalidade, promovido pelo Núcleo de Pesquisa em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no campus do Vale, em Porto Alegre. José Wilson da Silva e Almoré Zoch Cavalheiro lembraram os dias tensos de agosto de 1961, quando serviam em unidades do Exército na capital gaúcha.
O capitão José Wilson da Silva, na época primeiro sargento do Depósito de Material de Engenharia, conta que o prédio ficava numa área estratégica, no bairro Menino Deus, perto de outras unidades importantes, como o CPOR e, especialmente, o depósito de munições da 3ª Região Militar. Com a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, o comando de sua unidade promoveu uma reunião para definir uma posição a respeito. “O negócio começou a ferver no dia 25 mesmo, quando surgiu uma discussão dentro do quartel sobre o que fazer”. Nas reuniões seguintes — ele diz — ficou implícito que o comando estava de acordo com a posição dos ministros militares. “Mas nós começamos a dizer que éramos pela legalidade, e aí já estávamos com o rádio ligado na fala de Brizola. Chegou um momento em que o comandante da nossa unidade não tinha mais ascendência sobre os subordinados”, lembra.
O capitão José Wilson acrescenta que passou a coordenar a tropa, cerca de 200 militares no total, sobre os quais diz que já possuía certa ascendência, em função do posto que ocupava. “Foi então que comecei a participar de reuniões e percorrer os outros quartéis, para ver o que pensavam os demais. Também montamos um sistema de defesa do morro onde ficava o nosso quartel. Estávamos com a Legalidade”, conta.
Após o posicionamento do comandante do III Exército, general Machado Lopes, ao lado de Brizola e da solução constitucional, a situação começou a se normalizar. Mas não evitou que os sargentos e outros militares daquele movimento ficassem marcados. José Wilson da Silva passou a segundo tenente ainda durante a Legalidade, pois sua promoção já estava definida antes do movimento começar. Ele conta sua trajetória no livro O Tenente Vermelho, onde relata, ainda, sua eleição a vereador de Porto Alegre pelo PTB, em 64. Mas nesse cargo nem chegou a “esquentar o banco”, como diz, porque foi para o Uruguai, ameaçado que estava de prisão. Foi cassado e, em 1980, anistiado e incorporado ao Exército com o posto de capitão da reserva. Desde então, integra e atualmente preside a Ampla, a Associação de Defesa dos Direitos e Pró-Anistia Ampla dos Atingidos por Atos Institucionais.
Ponto alto da politização
Exército monta artilharia antiaérea nas ruas de Porto Alegre 
Foto: reprodução documentário Legalidade/ PDT
Em 1961, Almoré Zoch Cavalheiro era sargento no 18º RI — Regimento de Infantaria de Porto Alegre. Para ele, é preciso destacar que a Legalidade foi o ponto mais alto da politização dos suboficiais, subtenentes e sargentos, que já datava da época do governo de Getúlio Vargas, todos sob a bandeira do nacionalismo. “Na Legalidade, o discurso de Brizola foi suficiente para que nós, sargentos, exigíssemos que o Exército cumprisse os preceitos constitucionais. Os sargentos foram tomando posição, individual e coletivamente, em cada unidade, a tal ponto que ela se generalizou e os comandos sentiram que não contariam com os subalternos para o golpe”, diz ele.
Para Almoré, o general Machado Lopes era “um profissional dentro do Exército e, por natureza, constitucionalista”. Assim, “sentindo que não tinha mais a tropa e ouvindo seus auxiliares, especialmente os oficiais nacionalistas, como o coronel Assis Brasil, acabou definindo a posição do III Exército a favor da Legalidade”.
Depois desse movimento, constata, “começou um período de extrema dificuldade para sargentos e subtenentes; com a normalização nos quartéis, muitos foram punidos ou transferidos”. Em 62, candidato a deputado estadual pelo PTB/RS, Almoré foi eleito e acabou sendo impugnado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pois a Constituição era dúbia quanto à elegibilidade dos sargentos. Essa e outras questões ele aborda no livro que está preparando, A Revolta dos Sargentos (1961-1964), com lançamento previsto para este ano.
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