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“Tinha uma menininha, ela tinha uns 3 ou 4 anos, que me abraçou e não queria mais me soltar. Ela brincou comigo o tempo todo, umas 3 ou 4 horas, […]ela não desgrudava de mim. Aquilo me marcou, ver que o pouco de carinho que a gente dá para eles faz a diferença.”
DO DESESPERO À ESPERANÇA
Mônica Dias e Felipe Libório*
No dia 12 de janeiro deste ano, um terremoto de magnitude 7 devastou o Haiti, país mais pobre do continente americano. Desde 2004 o Brasil já vinha contribuindo com a Organização das Nações Unidas (ONU) em seu projeto de reestruturação do país. Como parte desses esforços, a Engenharia Militar da Amazônia, através do 2º Grupamento de Engenharia, mantém um rodízio de tropas no país a cada 6 meses.
Uma semana após o terremoto, um contingente formado por 41 homens que integram a Companhia de Engenharia de Força de Paz foi enviado ao Haiti. Eles retornaram no dia 10 de agosto, após 6 meses de serviços prestados à Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH,  na sigla em inglês).
Em entrevista à Maloca Digital, o subtenente Benício, que está no Exército há 26 anos e fez parte da tropa, falou do trabalho e das dificuldades enfrentadas durante a experiência de interagir as Forças de Paz da ONU no Haiti.
Maloca Digital– Como foi o ingresso nas Forças de Paz e a transferência para o Haiti?
Subtenente Benício- Há um processo seletivo, no qual nós nos voluntariamos, enviamos nossos dados e nossas habilidades. Esse documento é enviado ao Estado Superior, e você passa por uma seleção. Após ser selecionado, o militar inicia uma série de exercícios de preparação para o trabalho no exterior. Ocorre o preparo descentralizado, com a primeira fase desenvolvida aqui em Manaus, e, posteriormente, o preparo centralizado com os outros militares do Exército vindos de diversas regiões do país, trabalho esse que foi desenvolvido lá no Rio de Janeiro. Fizemos as duas partes entre Agosto e Dezembro do ano passado. Viajamos em Janeiro deste ano.
MD- Como você descreve a chegada ao Haiti?
STB- Antes de viajar, criamos uma série de expectativas, porque o que a gente conhece sobre o lugar nos é passado por quem já foi. Nós chegamos lá uma semana após o terremoto, encontramos o país num caos total, só ruínas, então foi uma chegada bem traumática para muitos. O normal seria chegar lá e continuar o trabalho que o batalhão anterior estava realizando, mas com o terremoto tudo mudou. Começamos a desenvolver um trabalho em função do terremoto, porque toda a força disponível foi empregada na assistência as vítimas. Depois, começamos a trabalhar na reparação e construção de bases para as forças da ONU e de campos de refugiados, porque muita gente não tinha para onde ir.
MD- Como é o dia a dia dos militares que atuam no Haiti?
STB- No nosso caso, da Engenharia brasileira, passamos a maior parte do tempo na base, saindo apenas para trabalhar. A rotina era acordar, tomar café da manhã, sair pra realizar a função que a Companhia recebia da ONU, e voltar para a base. Nós morávamos em containers. Então era do container para o trabalho e do trabalho para o container.
MD- Qual o sentimento do povo haitiano depois da tragédia?
STB- No primeiro momento, eu acho que eles ficaram estupefatos, sem saber o que fazer, ficaram meio aéreos. Porque ninguém acreditava, eram muitos mortos.
MD- A chegada da ONU deu esperança a eles?
STB- Bem, eles querem uma mudança, eles contam muito com isso. É o país mais pobre da América, então precisa muito da ajuda dos outros. Parece-me que eles querem que a ONU faça algo em prol deles para que eles possam caminhar com as próprias pernas. A gente conversa com vários haitianos, muitos soldados da base são haitianos, e o sentimento comum deles é esse. Eles têm orgulho de ser a primeira nação independente da América, dizem que serviram de modelo para os outros países do continente, eles têm vontade de crescer como país. E eu acho que estão buscando, que estão no caminho certo. Basta ter um esforço conjunto das outras nações para ajudá-los.
MD- Quais foram os principais serviços realizados no Haiti pelo seu agrupamento?
STB- Logo depois do terremoto, havia a necessidade de socorrer as vítimas e realizar os sepultamentos, depois continuamos com o trabalho de remoção de escombros. A gente trabalha pra eles tapando buraco, melhorando e limpando as vias.
MD- Como o povo haitiano vê a atuação da MINUSTAH?
STB- O Brasil, a engenharia, é bem vista pelos haitianos. A gente passa e eles falam “Oi, Brasil!”. Se eles virem duas viaturas de outros países e uma do Brasil, eles correm para a nossa falando “Brasil, Brasil, amigos!”. Também tem aquela intimidade do futebol, a gente coloca a camisa da seleção e eles falam do Ronaldo.  Nós somos bem aceitos, não enfrentamos problemas com a população.
MD- Como é a experiência de estar num país estrangeiro por tanto tempo?
STB- É uma experiência nova e gratificante. Todos tivemos um aprendizado muito grande. Porque você está numa situação com a sua família, você cuida de tudo, você vai pro seu trabalho, vai pra casa, você tem uma rotina, um controle. Mas depois que você chega lá você não tem mais, então você depende dos seus familiares, apesar de estar longe você fica lembrando “Ei, pagou aquela conta? Fez isso? fez aquilo?”. Eu tinha essa preocupação, mas vi que tudo foi se ajeitando, então fiquei tranquilo. Nós percebemos que os nossos familiares dependem da gente, mas se for necessário eles sabem caminhar sozinhos.
MD- Qual a sensação de ter feito parte da MINUSTAH, levando em conta a sua importância para o povo do Haiti?
STB- É um orgulho muito grande, uma satisfação pessoal, uma satisfação também para a nossa família. É bastante gratificante ter feito e participado desse trabalho em prol da nação haitiana.
MD- Seis anos depois no início da MINUSTAH, como você julga a atuação da missão no Haiti? Qual sua importância para o país?
STB- Antes de o Brasil assumir, o país era um caos total. Conversando com os diversos companheiros que foram e tiveram a oportunidade de retornar ao Haiti, eles nos contam como notaram a diferença. Quando eles foram, logo no começo, não podiam transitar em algumas áreas porque tomavam tiro, e hoje não. Está mais pacífico, tem área verde, a gente já pode circular. Sem segurança, o comércio não podia funcionar, e hoje alguns já estão funcionando. Há um trabalho progressivo que vem sido desenvolvido ao longo desses 6 anos e, segundo aqueles que tiveram uma visão de antes e depois, está dando resultado.
MD- Por quanto tempo o contingente militar brasileiro ainda vai ficar no Haiti?
STB- Todo ano é renovado esse contrato pelo governo brasileiro, então eu não tenho essa previsão. Até agora a presença brasileira está confirmada por mais um ano.
MD- Agora que voltou para casa, quais são os planos?
STB- Eu ainda não voltei pra casa (risos). Nós passamos por um período de avaliação durante 3 dias antes de voltar pra casa. Fazemos exames psicológicos, médicos e laboratoriais e só depois disso é que somos liberados para ir para casa. Por enquanto eu pretendo ficar por aqui e, se surgir outra oportunidade, em 2 ou 3 anos, eu posso retornar ao Haiti.
MD- Qual o sentimento deixado em você pelo Haiti?
STB- Um povo guerreiro, sofrido, mas que tem orgulho, e que precisa do nosso apoio. Não só do Brasil, mas de outros países também, para que eles possam aprender a seguir seu rumo, e eles têm tudo pra isso. É visível que eles gostam quando a gente valoriza o trabalho que eles estão fazendo.
MD- Qual a pior lembrança que você trouxe do Haiti?
STB- Ver as pessoas feridas sendo retiradas dos escombros ainda com vida e, depois, ver vários mortos. Eu vi vários mortos, e essa visão a gente procura esquecer.
MD- E a melhor?
STB- A Cia de engenharia adotou um orfanato, e como eu trabalhava muito na base e quase não fazia serviço externo, eu não tive oportunidade de visitar. Mas o orfanato passou um dia com a gente lá na base e foi muito bom brincar com aquelas crianças. Tinha uma menininha, ela tinha uns 3 ou 4 anos, que me abraçou e não queria mais me soltar. Ela brincou comigo o tempo todo, umas 3 ou 4 horas, e tentava dar ela pra outra pessoa e ela não desgrudava de mim. Aquilo me marcou, ver que o pouco de carinho que a gente dá para eles faz a diferença.
MD- Como está o Haiti agora?
STB- Está voltando à normalidade. No pós terremoto, nos dias que sucederam a tragédia, nós encontrávamos nas ruas os sobreviventes e parecia que eles estavam em estado de choque. Eu passei dois dias no mesmo local e havia uma mulher que durante os dois dias ficou sentada no mesmo lugar. As ruas eram sujas e agora já é possível circular com normalidade, as vias estão limpas, as edificações estão sendo reconstruídas, nós vemos casas, prédios, os comércios abertos, pintados, arrumados. A gente já vê certa normalidade, ninguém vê mais aquele pessoal vagando a esmo, como nos dias do pós terremoto. Foi gratificante trabalhar para que eles conseguissem voltar a essa normalidade. Porque ninguém previa esse terremoto, eu, por exemplo, fui para fazer asfalto, tapar buraco e, de uma hora para outra, mudou. Eu só fui trabalhar com asfalto no final da missão. O esforço de todos contribuiu para ajudar.
*estudantes de jornalismo da Ufam. 

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