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ABEL COELHO DE MORAIS

Um piloto que pinta o avião de vermelho não quer passar despercebido. Assim era Manfred von Richthofen, que abateu 80 adversários até ser, ele próprio, abatido a 21 de Abril de 1918. Tinha 25 anos.

Ao oficial prussiano, nascido em 1892, nunca se lhe conheceram notas particularmente altas,a não ser em ginástica e esgrima. Esta é uma personalidade incompatível com a “inacção” das trincheiras, que conhece quando o seu regimento é colocado na frente francesa no início da guerra, em 1914.
Em Maio de 1915, não resiste e pede transferência para a Força Aérea. Mas os primeiros tempos não serão fáceis. Após uma curta aprendizagem, a 10 de Outubro de 1915, Richthofen realiza o primeiro voo a solo. “Realizei várias manobras, como me foi pedido para fazer, aterrei e descolei com sucesso várias vezes. Senti-me orgulhoso de tudo o que tinha feito. Contudo, para minha surpresa, foi-me comunicado que chumbara. Não havia nada a fazer a não ser voltar a repetir o exame”, recordou no seu livro O Piloto Vermelho (Die Rotte Kampffliger).
Como piloto tem um início indiferente. Jovem impetuoso, não se contenta com a monotonia da frente leste. Pede a transferência para a frente ocidental, onde o seu irmão mais novo, Lothar, irá juntar-se no início de 1916, também proveniente da arma de Cavalaria.
É em 1916 que chega a consagração. Em Agosto está na esquadrilha de Oswald Boelcke, um dos primeiros e mais famosos ases da aviação, que vai desaparecer em combate a 28 de Outubro.
O piloto que, na época da morte de Boelcke, tinha ultrapassado largamente o seu mentor em número de aviões abatidos, nunca deixando de lhe prestar homenagem e de o considerar melhor piloto do que ele próprio. “De madrugada, bateram–me à porta e ao abri-la vi diante de mim o grande homem, com a sua Pour le Mérite [medalha correspondente à ordem militar prussiana do mesmo nome, criada por Frederico II, em 1740; a designação em francês corresponde à língua da corte prussiana]. Não conseguia imaginar o que podia querer. É verdade que o conhecia, mas nem por um momento me ocorreu que me vinha convidar para ser seu discípulo”, escreve Richthofen nas suas memórias.
É como membro da esquadrilha de Boelcke que o Piloto Vermelho abate o primeiro avião. Inspirando–se numa tradição vigente, a cada nova vitória, Richthofen irá encomendar uma pequena taça de prata com a inscrição “1 Vickers 2 17.9.16” – o primeiro número corresponde ao número da sua vitória; a palavra identifica o modelo de avião; o segundo número corresponde aos membros da tripulação, a que se segue a data do combate. É nesta altura que manda pintar de vermelho todo o avião – “a partir daí, todos sabiam quando eu estava nos ares”, em especial os inimigos, que vão cunhar alcunhas como Diabo Vermelho ou Barão Vermelho.
Mais tarde, teve de suspender a encomenda dos troféus, devido à escassez de prata. Richthofen tinha abatido 61aparelhos. Antes, em Janeiro de 1917, é a sua vez de receber a Pour le Mérite. Em Abril ultrapassa Boelcke em número de vitórias e o comando militar ordena-lhe que deixe de voar. Pára durante dois meses; escreve as memórias. Ao regressar, quase se confirmam os piores receios do Alto Comando: é alvejado, mas consegue sobreviver.
Quando volta a voar, em pouco mais de oito meses, abate 40 aviões inimigos. É o ás dos ases. Nenhum outro piloto conseguirá alcançar o seu recorde de 80 vitórias. Mas a sorte das armas está a mudar para a Alemanha e Áustria-Hungria.
A 21 de Abril de 1918, Richthofen levanta voo para enfrentar um grupo de aviões canadianos; não imaginava, decerto, que iria revelar-se fatal a caça a um avião em fuga, tripulado por um novato envolvido no seu primeiro combate.
Pilotado por Wilfred May, o avião põe-se em fuga ao ficar com as metralhadoras encravadas. Richthofen persegue-o, não se apercebendo que, por sua vez, está a ser perseguido pelo comandante do grupo canadiano, capitão Arthur R. Brown. Já sobre território aliado, May voa o mais baixo possível para tentar afastar Richthofen; não o consegue, mas o prussiano está agora a ser alvejado por Brown – e a partir das trincheiras. O vermelho do seu Fokker torna-o um alvo perfeito. Embora permaneça alguma controvérsia sobre quem matou o ás dos ases, tudo indica que o Barão Vermelho tenha sido morto por um disparo feito por um soldado a partir das trincheiras. As mesmas trincheiras que enfastiavam o Richthofen de 1914.
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