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“Os políticos importantes geralmente são psicopatas por uma simples razão: o psicopata adora o poder.”
Rogério Mendelski
O cartaz de um invasor da Câmara Legislativa de Brasília mostrava um protesto que dizia assim: “No circo, eles são os artistas e nós os palhaços”. O circo era o governo brasiliense e sua corrup-ção fétida e revoltante. Estava ali a definição que o médico psiquiatra argentino Hugo Marietán dá para os políticos psicopatas. Para Marietán, identifica-se um político psicopata pela sua característica básica que é a mentira. Mas este político não é um mentiroso qualquer. “Ele é um artista. Mente com a palavra, mas também com o corpo. Atua. Pode, inclusive, fingir sensibilidade. Acreditamos nele uma e outra vez, porque é muito convincente.” E aí, não lembramos, imediatamente, do então senador José Roberto Arruda, chorando, interpretando sua inocência no caso da adulteração do painel do Senado, em 2001? Foi uma interpretação tão teatral que Arruda jurou pelos filhos que não tinha nada com a violação do sigilo do painel. Dias depois, pela evidência inequívoca renunciou para não ser cassado. Elegeu-se por mais duas vezes: em 2002, deputado federal, e em 2006, governador de Brasília. Voltemos a Marietán: “Os políticos importantes geralmente são psicopatas por uma simples razão: o psicopata adora o poder. Utiliza as pessoas para obter mais e mais poder, e as transforma em coisas para o próprio benefício. Isto não quer dizer, logicamente, que todos os políticos ou todos os líderes sejam psicopatas, mas sim que o poder é um ambiente onde eles se movem como peixe na água.” Um político psicopata busca a posse de pessoas, dinheiro, caixa dois e a disposição para comprar vontades. Para Marietán, este político aciona sua patologia perguntando para si mesmo: “Como dobro a vontade do outro? Com um cargo, com um plano, com um subsídio? E como divido isso?”. O político psicopata vê as pessoas como “coisas”. Ele corrompe pensando no retorno. “Eu te dou, tu retornas para mim, tu vens para a ação, tu respondes como eu peço. Não é um dar sem interesse, nem movido pela sensibilidade de querer ajudar a quem não tem nada. É uma utilização das pessoas para construir o próprio poder”. Mas o político psicopata também pode errar, segundo Marietán. O ponto fraco é a frustração de seus planos e um bom exemplo pode ser quando ele é flagrado por uma câmera secreta. “Aí, o psicopata se desorganiza e começa a fazer bobagens e, por isso, na frustração pode ter atitudes toscas e lerdas”. Se Hugo Marietán ouvisse a desculpa de José Roberto Arruda dizendo que pegou R$ 50 mil para comprar panetones e, agora, com o edital baixado pelo GDF para a aquisição de 120 mil unidades deste pão natalino, o psiquiatra argentino diria, no mínimo, que o governador de Brasília é um artista.
A cabeça do psicopata
Hugo Marietán admite que é muito difícil “entrar na cabeça de um psicopata”. “Eles têm uma lógica muito diferente. Sua bandeira é sempre superior e impessoal, onde apela ao homem novo, ao projeto nacional, à libertação, à raça superior, à nação, à pátria. O psicopata sempre necessita de um inimigo para aglutinar. E, logicamente, nunca vai dizer ”vamos trabalhar para mim”. Ele deixa uma pessoa sem opções, já que manipula quem está em desvantagem econômica, sem opções.”
A diferença
O afã desmedido de poder, de protagonismo e até de mandar matar, se for o caso, caracteriza o político psicopata não como um doente mental, mas dotado de uma maneira especial de ser no seu mundo. “Um estuprador serial – diz Marietán – seria um psicopata mais intenso e extremado, diferente do psicopata cotidiano (o político), mas ambos portadores da mesma periculosidade.”
Perigo constante
O psiquiatra argentino separa o criminoso psicopata, o serial killer, do político psicopata. O assassino protagoniza notícias policiais de alto impacto, já um político com a mesma patologia é um “psicopata cotidiano”. “São personalidades especiais, que não só se adaptam perfeitamente ao meio, mas que também estão perfeitamente ao nosso redor sem maiores estridências. E mais: muitos deles costumam chegar ao sucesso econômico, político e de reconhecimento social”.
Fome de poder
Para Marietán, um dirigente político normal sabe que tem que cumprir a sua função durante um tempo determinado. Cumprida a missão, vai embora. O político psicopata, chegando ao poder, necessita ficar uma, duas, três vezes. Não deixa o poder e muito menos o delega. Conhecemos aqui no Brasil, políticos que se comportam assim?
Quem é Marietán
Hugo Marietán tem 57 anos, é professor na Universidade de Buenos Aires, co-diretor da revista de neuropsiquiatria Almaceón e coordenador do portal www.psiquiatria.com. Sua página na internet (www.marietán.com) é uma referência permanente nos estudos sobre psicopatologia. As opiniões de Marietán foram recolhidas numa entrevista ao jornal La Nación, da capital argentina.

ROGÉRIO MENDELSKI  [email protected]

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