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Na FAB, a sensação é de que os próximos passos da consulta serão mera formalidade, pois a decisão a favor do Rafale já foi tomada.
A rápida passagem do presidente da França, Nicolas Sarkozy, pelo Brasil na última semana foi marcada por uma sequência de contratempos com repercussão internacional. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, comemorou o 7 de setembro em visível saia-justa e o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, assistiu ao desfile militar sem saber se terminaria a semana no cargo.
Tudo porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se contentou em anunciar publicamente apenas o que já estava previamente combinado: a compra de helicópteros e submarinos franceses, num pacote de R$ 22,6 bilhões. Embalado pelo discurso da necessidade de defesa do pré-sal, Lula afirmou que o Brasil estaria iniciando negociações diretas com a França para a aquisição de 36 aviões supersônicos Rafale.
Assim, antecipou uma decisão, passando por cima do Ministério da Defesa e da Aeronáutica, que ainda não haviam se manifestado sobre as propostas dos Estados Unidos e da Suécia, que disputam com a França o reequipamento da Força Aérea Brasileira. Diante de Sarkozy, Saito sentiu-se desmoralizado e cogitou deixar o comando da Aeronáutica. Só recuou depois que o ministro Jobim emitiu uma nota oficial afirmando que a escolha do avião ainda não estava definida.
Os mal-entendidos começaram na noite do domingo 6. Para celebrar a parceria com os franceses, Lula organizou um churrasco no Palácio da Alvorada. A carne já estava próxima do ponto quando o teto de vidro da churrasqueira não resistiu ao calor e explodiu, espalhando cacos sobre as carnes. A gafe não foi maior porque dona Marisa tinha uma carta na manga. Durante a tarde, a primeiradama mandou preparar uma moqueca capixaba, pois temia que chovesse e o churrasco ficasse comprometido. Não choveu, mas a moqueca acabou substituindo a picanha.
Durante o jantar, Sarkozy perguntou sobre os aviões e Lula reclamou do preço ofertado pelos franceses. Desta vez, quem tirou, literalmente, uma carta do bolso foi o presidente francês. No documento entregue a Lula, Sarkozy se compromete com a “transferência irrestrita” de tecnologia e “preço competitivo” dos supersônicos Rafale, além de prometer a compra de dez aviões cargueiros KC-390, um projeto em desenvolvimento pela Embraer.
Foi a carta de Sarkozy que motivou Lula a antecipar a decisão a favor da França. Jobim e Saito fo ram informados por Lula sobre a negociação na mesma noite, durante reunião da qual participaram o embaixador do Brasil na França, José Maurício Bustani, o assessor de assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, além do chefe do Estado-Maior francês e o embaixador da França no Brasil. Contrariado, Saito pediu a Jobim que soltasse a nota pública mantendo a disputa aberta. Diante do imbróglio, o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) pediu explicações ao ministro da Defesa e convocou uma reunião extraordinária da Comissão de Defesa Nacional do Senado na quarta-feira 16.
“O governo fez uma tremenda confusão ao anunciar o resultado de um processo que não estava concluído”, disse Azeredo à ISTOÉ. A Casa Branca, por sua vez, acreditou na versão de Jobim e partiu para o ataque. Divulgou, por meio da embaixada em Brasília, uma nota em que reafirma a disposição dos Estados Unidos de transferir “toda a tecnologia necessária” e destaca que o Congresso americano não fez objeção à proposta de venda feita ao Brasil.
Os EUA também prometeram fazer a montagem final do F-18 com a Embraer. Mas a promessa pareceu “genérica” na visão de Marco Aurélio Garcia, que pediu “garantias efetivas do processo de tecnologia”. Lula, por sua vez, ironizou a situação, dizendo que vai acabar recebendo os aviões “de graça”. A confusão obrigou os concorrentes a apresentar novas propostas até 18 de setembro.
O deputado Julio Delgado (PSB-MG) está cético quanto ao resultado da concorrência. “Desde o início estava clara a predileção do presidente Lula e do ministro Jobim pelos franceses”, afirma. Para o parlamentar, “se a análise técnica for apenas uma formalidade, não haverá outra saída para Saito que não a renúncia”. O analista Salvador GhelfiRaza, do Centro Hemisférico de Estudos de Defesa, braço acadêmico do Pentágono, avalia que o governo errou.
“Ou você faz um processo essencialmente político ou uma análise técnica séria, que seja levada em conta.” Para o deputado Rodrigo Rollemberg, líder do PSB na Câmara, “o mais importante é garantir que a empresa que vença a concorrência possa promover de fato uma ampla transferência de tecnologia”. Na FAB, a sensação é de que os próximos passos da consulta serão mera formalidade, pois a decisão a favor do Rafale já foi tomada.
ISTO É INDEPENDENTE

Comento:
Saito não renuncia. É só jogo de cena. O Brigadeiro engoliu calado a desmoralização sofrida na crise dos controladores, em que o único ministro que estava em Brasília (poderia ser qualquer ministro) negociou um acordo por escrito com os amotinados, no jargão militar, “cagando” para sua autoridade.
Para quem se curvou a tal ponto, fazer de conta que o critério técnico foi respeitado é café pequeno.

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